A Religião e a Família – Allan Bloom

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A Religião e a Família – Allan Bloom

A religião é outro elemento da cultura primária fundamental que desapareceu. Na medida em que o respeito pelo sagrado – a última moda – subiu às alturas, a religião propriamente dita e o conhecimento da Bíblia diminuíram até o ponto de fuga. Os deuses jamais tiveram grande favoritismo na vida política ou nas escolas dos Estados Unidos. O pai-nosso que murmurávamos na escola primária na minha infância mexia menos conosco do que o juramento de fidelidade que também recitávamos. Mas a religião vivia no lar e nos templos a ele relacionados. Os dias santos, a linguagem e a série de referências comuns que impregnavam a maior parte das casas constituíam boa parte dos vínculos familiares, dando-lhes conteúdo e substância. Moisés e as tábuas, Jesus Cristo e a pregação do amor fraternal tinham existência imaginativa. Passagens dos salmos e dos evangelhos ecoavam na mente das crianças. Ir à igreja ou à sinagoga e rezar à mesa formavam um modo de vida, inseparável da educação moral que se supunha constituir a responsabilidade especial da família na democracia americana. Na realidade, o ensino moral correspondia ao religioso. Não havia doutrina abstrata. As coisas que se julgavam que a gente pudesse fazer, a sensação de que o mundo as encorajava, castigando a desobediência, tudo estava encarnado nas histórias da Bíblia. A perda do esteio da vida interior concedido àqueles que eram alimentados pela Bíblia deve ser primeiramente atribuída não às nossas escolas ou à vida política, mas sim à família, a qual, com todos os seus direitos à privacidade, se demonstrou incapaz de manter todo e qualquer conteúdo próprio. A melancolia da paisagem espiritual da família é inacreditável. É tão monocromática e tão alheia a quem vive nela como as estepes desérticas frequentadas por nômades, os quais extraem a sua mera subsistência e vão embora. O delicado tecido da civilização, no qual as sucessivas gerações se entrelaçavam, desfiou-se – e os filhos são criados, mas não educados.

Não estou falando dos lares infelizes e desfeitos que formam parte tão significativa da vida americana, mas dos relativamente felizes, onde marido e mulher gostam um do outro e cuidam dos filhos, muitas vezes lhes devotando, generosamente, o melhor de suas vidas. Acontece porém que não têm nada para dar aos filhos em termos de uma visão do mundo, de elevados modelos de conduta ou de pro fundo senso de relação com os outros. A família exige a mais delicada mistura de natureza e de convenções, do humano e do divino, para que subsista e preencha suas funções. Na base dela está a mera reprodução fisiológica, mas a sua finalidade é a formação de seres humanos civilizados. Ao ensinar uma língua e ao dar nome a todas as coisas, transmite uma interpretação da ordem do conjunto dessas coisas. Alimenta-se de livros em que a pequena comunidade organizada – a família – acredita, os quais falam do que é justo e injusto, bom e mau, explicando por que é assim. A família requer certa autoridade e sabedoria quanto aos caminhos dos céus e dos homens. Os pais devem saber o que aconteceu no passado e ter fórmulas sobre aquilo que está por vir a fim de resistir à incultura ou à iniquidade do presente. É costume dizer agora que o ritual e a cerimônia são necessários à família, mas estes estão faltando. No entanto, a família tem de ser uma unidade sagrada, crente na permanência daquilo que ensina, se o ritual e as cerimônias respectivas estão aí para expressar e transmitir o milagre da lei moral, que só ela é capaz de transmitir e que a torna essencial em um mundo devotado ao humanamente – por demais humanamente – útil. Quando a crença desaparece, conforme ocorreu, a família guarda na melhor das hipóteses uma unidade transitória. As pessoas jantam, brincam e viajam juntas, mas não pensam juntas. É raro que haja vida intelectual em qualquer residência, muito menos uma vida que inspire os interesses essenciais da existência. A televisão educativa assinala a maré alta da vida intelectual da família.

A causa da deterioração do papel dela como transmissora da tradição é a mesma da decadência das humanidades: ninguém acredita que os velhos livros contenham a verdade. Por isso, tornaram-se, na melhor das hipóteses, “cultura”, ou seja, chateação. Como dizia Tocqueville, numa democracia a tradição não é nada mais do que informação. Com a “explosão de informações”, a tradição ficou supérflua. Logo que a tradição passe a ser reconhecida como tal, estará morta, virando alguma coisa que ainda se elogia na vã esperança de formar o caráter das crianças. Para efeitos práticos, nos Estados Unidos, a Bíblia era a única cultura comum, a qual unia os simples e os requintados, os ricos e os pobres, os jovens e os velhos e – como verdadeiro modelo de uma visão do mundo, chave para o resto da arte do Ocidente, cujas maiores obras de uma forma ou de outra derivavam da Bíblia – contribuía para dar a seriedade aos livros. Com seu desaparecimento gradativo, inevitável, a própria ideia de um livro tão completo, a possibilidade e necessidade de uma explicação do mundo estão igualmente desaparecendo. Pais e mães perderam a noção de que a mais alta das aspirações que poderiam ter para os filhos seria a de serem sábios – como o são os sacerdotes, os profetas e os filósofos. Tudo que logram imaginar é competência especializada e sucesso. Ao contrário do que normalmente se pensa, sem o livro a própria ideia da ordem do conjunto está perdida.

Os pais não têm a autoridade legal nem moral que tinham no Velho Mundo. Falta-lhes confiança em si próprios como educadores dos filhos, na generosa crença de que serão melhores do que os pais, não só no tocante ao bem-estar, mas em qualidades morais, físicas e intelectuais. Sempre existe uma fé mais ou menos aberta no progresso, a qual significa que o passado se afigura mau e desprezível. O futuro, que é infinito, não deve ser receitado por familiares, mesmo porque eclipsa o passado, para eles inferior.

Simultaneamente, com as constantes novidades e incessantes deslocamentos de um lugar para outro, primeiro o rádio e depois a televisão assaltaram e transtornaram a intimidade do lar, a verdadeira intimidade dos americanos, a qual permitia o desenvolvimento de uma vida superior e mais independente dentro da sociedade democrática. Os pais já não conseguem dominar a atmosfera domiciliar e até perderam a vontade de o fazer. Com grande sutileza e energia, a televisão entra não só na sala, mas também nos gostos tanto de jovens quanto de velhos, apelando ao imediatamente agradável e subvertendo tudo quanto não se conforme com ela. Nietzsche dizia que o jornal substituíra a oração na vida do burguês moderno, querendo dizer que o mundano, o vulgar, o efêmero tinham usurpado tudo o que restava do eterno na sua vida diária. Hoje em dia, a televisão substituiu o jornal. Não é tanto a qualidade dos programas que preocupa, mas antes a dificuldade de imaginar algum sistema de critério, algum estilo de vida com amenidades e lições que se adaptem naturalmen­te à vida dos membros da família, que se distinga da cultura popular e resista às visões do que é admirável e interessante com as quais são bombardeados dentro da própria casa.

A propagação do ensino na classe média, que se expandiu enormemente no último meio século, também contribuiu para debilitar a autoridade da família. Quase todo mundo que pertence à classe média tem um curso superior e muitos fizeram pós-graduação. Aqueles dentre nós que podem voltar os olhos para a humildade da situação de nossos pais e avós, que jamais viram uma instituição universitária por dentro, têm motivos para se congratular consigo mesmos. Mas – e é inevitável – a impressão de que o populacho em geral é mais educado depende de uma ambiguidade no sentido da palavra educação ou de um embuste na distinção entre educação liberal e técnica. Um especialista de alto nível em computação não terá recebido maiores lições sobre moralidade, política ou religião do que a mais ignorante das pessoas. Pelo contrário, sua restrita educação, com os preconceitos e o orgulho que a acompanham, bem como a respectiva literatura, que surge e some um dia, e aceita sem críticas as premissas da sabedoria corrente, é capaz de o isolar do ensino liberal que o povo mais simples costumava absorver de uma variedade de fontes tradicionais. Para mim não é evidente que alguém cuja leitura regular consiste em Time, Playboy e Scientific American seja senhor de uma sabedoria mais profunda sobre o mundo do que o aluno de escola rural de outrora com seu manual de leitura de McGuffey, o célebre pedagogo do século passado. Quando um rapaz procurava instrução, como Lincoln, o que havia à mão para aprender de imediato era a Bíblia, Shakespeare e Euclides. Seria realmente pior a situação dele do que a das pessoas que tentam abrir caminho por entre a salgalhada técnica do atual sistema educativo, com sua rematada incapacidade para distinguir o importante e o insignificante a não ser pela demanda do mercado?

Pelos padrões atuais, meus avós eram ignorantes, tanto que meu avô se ocupava com empregos humildes. Mas a casa deles era espiritualmente rica, porque tudo que nela se passava – e não só o que era tipicamente ritual – encontrava origem nos mandamentos da Bíblia e explicação nas histórias bíblicas e nos comentários sobre elas, com seu equivalente imaginário nos feitos de uma miríade de heróis exemplares. Meus avós encontraram razões para a existência da família e o cumprimento de seus deveres em textos sérios, interpretando os sofrimentos que experimentaram com relação a um passado nobilitante. A fé e os costumes simples deles estavam correlacionados a sábios e pensadores que se dedicavam aos mesmos elementos, não a partir de fora ou de uma perspectiva estranha, mas partilhando da mesma crença, ainda que aprofundassem o pensamento e oferecessem orientação. O verdadeiro ensino era respeitado, porque tinha uma conexão sensível com a vida das pessoas. Não é outra coisa que uma comunidade e uma história significam: uma experiência comum que atrai gente culta e simples para um único grêmio de fé.

Não acredito que a minha geração, meus primos que foram educados pelo sistema americano e que são todos médicos e pós-graduados, tenha um saber comparável. Se falam do céu e da Terra, das relações entre homens e mulheres, pais e filhos, da condição humana, não escuto senão clichês, superficialidades, coisas satíricas. Claro que seria vulgar dizer que a vida só vale a pena quando as pessoas têm mitos em que se apoiar. Pelo contrário, quero afirmar que a vida baseada no livro está mais perto da verdade, propiciando elementos para uma análise mais profunda e uma aproximação maior da autêntica natureza das coisas. Sem as grandes revelações, as epopeias e a filosofia fazendo parte de nossa visão natural, não há nada de novo lá fora e, por fim, muito pouco em nosso próprio espaço. A Bíblia não é o único meio de guarnecer o espírito, mas sem um livro de seriedade semelhante, lido com a gravidade do crente em potencial, ele ficará desaparelhado.

A educação moral, que deve ser a grande responsabilidade da família nos dias atuais, será impossível se não apresentar à imaginação dos jovens a visão de uma ordem moral, bem como as recompensas e os castigos para o bem e para o mal, discursos sublimes que acompanhem e interpretem os atos, protagonistas e antagonistas no drama da opção moral, a noção daquilo que tal opção envolve e o desespero que resulta quando o mundo fica “desencantado”. Caso contrário, a educação se torna uma vã tentativa de dar “valores” às crianças. Além do fato de os pais não saberem em que acreditam e não ter seguramente confiança em si próprios para dizer aos filhos senão que desejam vê-los felizes e realizados na sua capacidade potencial, os valores são coisas muito discutíveis. Que são, afinal, e como se transmitem? Pressupõe-se que os cursos sobre “esclarecimento de valores” que proliferam nas escolas devem oferecer modelos aos pais e levar as crianças a falar sobre aborto, sexualidade ou corrida armamentista, temas cujo significado provavelmente não entendem. Semelhante educação pouco mais vale do que propaganda, e propaganda não funciona, já que as opiniões ou valores a que se chega não passam de fogo-fátuo, sem substância nem fundamento na experiência ou na comoção, que são a base das razões morais. Tais “valores” mudarão inevitavelmente assim como a opinião pública. Falta por completo à nova educação o gênio que produz o instinto moral ou segunda natureza, pré-requisito não só do caráter mas também do pensamento. Na realidade, o pre­paro moral da família se reduz atualmente a inculcar o mínimo dos mínimos do comportamento social – não mentir nem roubar – e a gerar estudantes universitários incapazes de dizer nada mais sobre os fundamentos de sua conduta moral do que: “Se eu fizesse isso com ele, ele também poderia fazê-lo comigo” – explicação que nem chega a satisfazer quem a profere.

Essa gradativa redução ao silêncio dos velhos ecos políticos e religiosos na alma dos jovens responde pela diferença entre os alunos que eu conheci no início da minha carreira de professor e aqueles com quem me defronto hoje em dia. A falta de livros tornou-os mais limitados e mais vazios. Mais limitados porque lhes falta o que é mais necessário, ou seja, uma base real para o descontentamento com o presente e a consciência de que há alternativas para ele. Acham-se ao mesmo tempo mais satisfeitos com o que aí está e desesperançados de jamais escapar disso. A ânsia do além diluiu-se. Sumiram os próprios modelos para admiração e desprezo. Mais vazios, porque sem a interpretação das coisas, sem a poesia nem a ativi­dade da imaginação, a alma deles é como um espelho daquilo que os cerca e não da natureza. O refinamento do espírito que permite ver as delicadas diferenças entre os homens, entre seus atos e seus pensamentos e que constitui o verdadeiro bom gosto, é impossível sem o auxílio da literatura em grande estilo.

Dessa forma, diminui o terreno em que o ensino universitário possa lançar raízes, decai o entusiasmo e a curiosidade do jovem Glauco na República de Platão, cujo eros o faz imaginar que há esplêndidas satisfações reservadas para si, sobre as quais não quer que o iludam e para cujo conhecimento procura um mestre. Atualmente, é muito mais difícil incorporar os livros clássicos a qualquer experiência que os estudantes tenham ou a qualquer necessidade que sintam.

FONTE: O Declínio da Cultura Ocidental, Allan Bloom

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