Os Erros da Ideologia – Russell Kirk

Os Erros da Ideologia – Russel Kirk

Os Erros da Ideologia – Russell Kirk

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a tendência da opinião pública norte-americana tem sido mais ou menos conservadora. Há certo perigo, no entanto, de que os próprios conservadores caiam em uma ideologia estreita – muito embora se diga, como Henry Stuart Hughes (1916-1999) escreveu há uns quarenta anos, que o conservadorismo é a negação da ideologia.

O termo ideologia foi cunhado na época de Napoleão Bonaparte (1769-1821). Antoine-Louis-Claude Destutt de Tracy (1754-1836), o autor de Les Elements d’Ideologie (Os Elementos da Ideologia), era um “metafísico abstrato” do tipo que, desde então, se tornou comum na margem esquerda do Sena, um ponto de encontro para ideólogos incipientes, entre os quais, em décadas recentes, o famoso libertador do Kampuchea Democrático, Pol Pot (1928-1998). Destutt de Tracy e seus discípulos planejavam uma larga reforma educacional, que seria fundada sobre uma assim chamada ciência de ideias; eles se inspiraram fortemente na psicologia de Étienne Bonnot de Condilac (1715-1780) e, em menor grau, na de John Locke (1632-1704).

Rejeitando a religião e a metafísica, esses primeiros ideólogos acreditavam que poderiam descobrir um sistema de leis naturais – sistema que, caso obedecido, poderia tornar-se o fundamento da harmonia e do contentamento universais. Doutrinas de autointeresse, produtividade econômica e liberdade pessoal estavam ligadas a essas noções. Filhos temporãos de um moribundo Iluminismo, os ideólogos pressupunham que o conhecimento derivado das sensações, sistematizado, poderia aperfeiçoar a sociedade por meio de métodos éticos e educacionais e de uma direção política bem organizada.

Napoleão desprezou os ideólogos ao observar que o mundo não é governado por ideias abstratas, mas pela imaginação. John Adams (1735-1826) chamou essa recém-criada ideologia de “ciência da idiotice”. Mesmo assim, durante o século XIX, ideólogos surgiam como se alguém, à moda de um Cadmo, semeasse dentes de dragão que se transmutavam em homens armados. Tais ideólogos eram, em geral, inimigos da religião, da tradição, dos costumes, das convenções, dos usos e dos antigos estatutos.

O conceito de ideologia foi consideravelmente transformado em meados do século XIX, por Karl Marx (1818-1883) e sua escola. As ideias, Marx argumentou, não são nada além da expressão de interesses de classe, definidos em relação à produção econômica. A ideologia, a assim chamada ciência das ideias, torna-se, então, uma apologia sistemática das demandas de uma classe – nada mais.

Para expressar esse ponto nos termos diretos e maliciosos do próprio Marx, aquilo que se chama de filosofia política é meramente uma máscara para o egoísmo econômico dos opressores – assim declararam os marxistas. Marx escreveu numa carta a Friedrich Engels (1820-1895) que as ideias e normas dominantes constituem uma máscara ilusória sobre a face da classe dominante, revelada aos explorados como um padrão de conduta, em parte para ocultar, em parte para prover apoio moral à dominação.

Entretanto, os explorados, como disse Marx, também desenvolvem sistemas de ideias para avançar seus projetos revolucionários. Dessa forma, o que chamamos de marxismo é uma ideologia com o objetivo de alcançar a revolução, o triunfo do proletariado e, por fim, o comunismo. Para o marxista coerente, as ideias não têm nenhum valor em si mesmas: como toda arte, valem apenas como um meio para alcançar a igualdade de condições e a satisfação econômica. Ao mesmo tempo em que escarnece das ideologias de todas as outras convicções, o marxista constrói, com astuciosa paciência, a própria ideologia.

Apesar de ser uma das ideologias mais poderosas, o marxismo – que recentemente tem perdido força – possui competidores: várias formas de nacionalismo, a ideologia da negritude, o feminismo, o fascismo – uma quase-ideologia que nunca se concretizou por completo na Itália -, o nazismo – uma ideologia em embrião, como escreveu Hannah Arendt (1906-1975) -, o sindicalismo, o anarquismo, a social-democracia e Deus sabe quais mais. Sem dúvida, outras formas de ideologia ainda serão criadas durante o século XXI.

Kenneth Minogue, no livro Alien Pouvers: The Pure Theory of Ideology (Poderes Estrangeiros: A Teoria Pura da Ideologia), utiliza o termo “ideologia” para “denotar qualquer doutrina que apresente a verdade salvífica e oculta do mundo sob a forma de análise social. É característica de todas essas doutrinas a incorporação de uma teoria geral dos erros de todas as outras.” Essa “verdade salvífica e oculta” é uma fraude – um complexo de “mitos” artificiais e falsos, disfarçado de história, sobre a sociedade por nós herdada. Raymond Aron (1905-1983), no livro L’Opium des Intelectuels (O Ópio dos Intelectuais), analisa os três mitos que seduziram os intelectuais parisienses: os mitos da esquerda, da revolução e do proletariado.

Para resumir a análise da ideologia levada a cabo por estudiosos tais como os já citados Kenneth Minogue e Raymond Aron, bem como por Jacob Talmon (1916-1980), Thomas Molnar (1921-2010), Lewis Feuer (1912-2002) e Hans Barth (1904-1965), esta palavra – ideologia – significa, desde a Segunda Guerra Mundial, qualquer teoria política dogmática que consista no esforço de colocar objetivos e doutrinas seculares no lugar de objetivos e doutrinas religiosas; e que prometa derrubar dominações presentes para que os oprimidos possam ser libertados. As promessas da ideologia são o que Jacob Talmon chama de “messianismo político”. O ideólogo promete a salvação neste mundo, declarando, ardentemente, que não existe outro tipo de realidade. Eric Voegelin (1901-1985), Gerhart Niemeyer (1907-1997) e outros escritores enfatizaram que os ideólogos “imanentizam os símbolos da transcendência” — isto é, corrompem a visão da salvação pela graça após a morte, com falsas promessas de completa felicidade neste reino terreno.

A ideologia, em suma, é uma fórmula política que promete um paraíso terreno à humanidade; mas, de fato, o que a ideologia criou foi uma série de infernos na Terra. Abaixo listamos alguns dos vícios da ideologia:

1. A ideologia é uma religião invertida, negando a doutrina cristã de salvação pela graça, após a morte, e pondo em seu lugar a salvação coletiva, aqui na Terra, por meio da revolução e da violência. A ideologia herda o fanatismo que, algumas vezes, afetou a fé religiosa e aplica essa crença intolerante a preocupações seculares.

2. A ideologia faz do entendimento político algo impossível: o ideólogo não aceitará nenhum desvio da verdade absoluta de sua revelação secular. Essa visão limitada ocasiona guerras civis, a extirpação dos “reacionários”, e a destruição de instituições sociais benéficas e em funcionamento.

3. Ideólogos competem entre si, em uma imaginada fidelidade à sua verdade absoluta; e são rápidos em denunciar os desviantes ou traidores de sua ortodoxia partidária. Dessa forma, facções pronunciadas se criam entre os próprios ideólogos, e fazem guerra sem piedade e sem fim, uns com os outros, como fizeram os trotskistas e stalinistas.

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Os sinais da ruína ideológica se encontram à nossa volta. Como a ideologia ainda pode exercer tanto fascínio na maior parte do mundo?

A resposta a essa questão é dada, em parte, na seguinte observação de Raymond Aron:

Quando o intelectual não se sente mais ligado nem à comunidade nem à religião de seus antepassados, pede às ideologias progressivas tomarem conta da alma inteira. A diferença maior entre o progressismo do discípulo de Harold Laski (1893-1950) ou de Bertrand Russell (1872– 1970) e o comunismo do discípulo de Vladimir Lênin (1870-1924) relaciona-se menos com o conteúdo do que com o estilo das ideologias e da adesão. São dogmatismos da doutrina e a adesão incondicional dos militantes que constituem a originalidade do comunismo, inferior, no plano intelectual, às versões abertas e liberais das ideologias progressivas e talvez superior para quem está à procura de uma fé. O intelectual, que não se sente mais ligado a nada, não se contenta com opiniões, quer uma certeza, um sistema. A revolução traz-lhe seu ópio.

A ideologia oferece uma imitação de religião e uma filosofia fraudulenta, confortando, dessa forma, aqueles que perderam, ou que nunca tiveram, uma fé religiosa genuína e aqueles que não possuem inteligência suficiente para aprender filosofia de verdade. A razão fundamental por que devemos francamente nos opôr à ideologia – assim escreveu o sábio editor suíço Hans Barth – é que a ideologia é contrária à verdade: nega a possibilidade da verdade na política ou em qualquer outro campo, pondo motivos econômicos e interesses de classe no lugar de normas permanentes. A ideologia nega até a consciência e o poder de decisão dos seres humanos. Nas palavras de Barth: “O efeito desastroso do pensamento ideológico em sua forma radical não é apenas lançar dúvidas a respeito da qualidade e da estrutura da mente humana, características distintivas do ser humano, mas também enfraquecer as bases da vida social”.

A ideologia pode atrair os entediados da classe culta, que se desligaram da religião e da comunidade, e que desejam exercer o poder. A ideologia pode encantar os jovens, parcamente educados, que, em sua solidão, se mostram prontos a projetar um entusiasmo latente em qualquer causa excitante e violenta. E as promessas dos ideólogos podem arregimentar seguidores dentre os grupos sociais postos contra a parede – ainda que tais recrutas possam não entender quase nada das doutrinas dos ideólogos. A composição inicial do partido nazista ilustra, suficientemente, o poder de uma ideologia para atrair elementos tão diversos.

Na primeira página deste ensaio, sugeri que alguns norte-americanos, dentre eles alguns com inclinações conservadoras, poderiam vir a abraçar uma ideologia do capitalismo democrático, ou da Nova Ordem Mundial, ou de um democratismo internacional. Entretanto, a maioria dos norte-americanos, com um afeto dissimulado pela palavra ideologia, não busca varrer violentamente todas as dominações e todos os poderes existentes. O que essas pessoas, de fato, demandam quando exigem uma “ideologia democrática” é uma fórmula para a religião civil, uma ideologia do americanismo ou, talvez, do mundo livre. O problema com essa noção de religião civil reside no fato de que a grande maioria dos norte-americanos acredita que já tenha uma religião própria, e não uma fé preparada por algum departamento governamental em Washington, D.C. Se tal religião civil oficial, ou essa suave ideologia, viesse a ser projetada para, por meio de algum processo insidioso, suplantar as miríades de credos que, atualmente, florescem nesta Terra – ora, a hostilidade para com a crença no transcendente seria enorme, bem como seria tamanho o desprezo pelas “altas religiões”. Eis precisamente o artigo mais amargo do credo dessas ideologias, que têm castigado o mundo pelas últimas oito décadas.

Provavelmente, tudo o que pretendem os entusiastas dessa nova proposta de ideologia anticomunista é uma declaração de princípios e conceitos econômicos, amplamente promulgados, aprovados legislativamente como um guia para políticas públicas, e ensinados em escolas públicas. Se isso é tudo o que se espera por que insistir em rotular tal noção como uma ideologia? Uma ideologia inocente é tão improvável quanto seria o “diabolismo cristão”; aplicar à alguma ideia o sinistro rótulo de “ideologia” seria como convidar os amigos para uma inocente fogueira de Halloween, anunciando, porém, a festa como o “novo Holocausto”.

Caso essa “ideologia democrática” acabasse por se revelar, na prática, como nada além de um programa nacional de civismo para escolas, ainda assim mereceria ser vigiada com muito cuidado. Exaltar sobejamente as belezas do capitalismo democrático em todas as salas de aula entediaria a maioria dos alunos e provocaria repulsa nos mais inteligentes. E não são aulas de educação cívica que formam, primariamente, as mentes e a consciência das novas gerações: esse é, sobretudo, o papel do ensino das humanidades. Não gostaria de ver o que resta dos estudos literários na escola pública típica sendo suplantado por uma propaganda oficial sobre a santidade do American Way of Life, do mundo livre ou do capitalismo democrático.

Não compartilho da opinião de que seria bom jogar o inebriante vinho de uma nova ideologia goela abaixo dos jovens norte-americanos. Se invocarmos os espíritos das profundezas abissais, será que poderemos esconjurá-los? O que precisamos transmitir é prudência política, não beligerância política. A ideologia é a doença, não a cura. Todas as ideologias, incluindo a ideologia da vox populi vox Dei, são hostis à permanência da ordem, da liberdade e da justiça. A ideologia é a política da irracionalidade apaixonada.

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Permiti-me, portanto, tecer aqui, em uns poucos parágrafos, algumas reflexões sobre a prudência política, em oposição à ideologia.

Ser “prudente” significa ser judicioso, cauto, sagaz. Platão (427347 a.C.), e mais tarde Edmund Burke (1729-1797), ensinaram-nos que, no estadista, a prudência é a primeira das virtudes. Um estadista prudente é aquele que olha antes de se lançar; que tem visão de longo alcance, que sabe que a política é a arte do possível.

Algumas páginas atrás especifiquei três erros profundos (vícios) do político ideológico. Agora, contrasto-os com certos princípios da política da prudência: 

1. Conforme dito antes, a ideologia é uma religião invertida. No entanto, o político prudente sabe que “utopia” significa “lugar nenhum”; que não se pode marchar em direção a uma Sião terrena; que a natureza e as instituições humanas são imperfeitas; que a “justiça” agressiva na política acaba em massacre. A verdadeira religião é uma disciplina para a alma, não para o Estado.

2. A ideologia torna impossível o compromisso político, como fiz notar. O político prudente, au contraire, tem plena consciência de que o propósito original do Estado é manter a paz. Isso só pode ser alcançado via a manutenção de um equilíbrio tolerável entre os grandes interesses da sociedade. Partidos, interesses, grupos e classes sociais devem realizar acordos, caso queiram manter as facas longes dos pescoços. Quando o fanatismo ideológico rejeita qualquer solução conciliatória, os fracos vão para o paredão. As atrocidades ideológicas do “Terceiro Mundo”, nas últimas décadas, ilustram o ponto: os massacres políticos no Congo, Timor, Guiné Equatorial, Chade, Camboja, Uganda, Iêmen, El Salvador, Afeganistão e Somália. A política prudencial busca a reconciliação, não o extermínio.

3. As ideologias são acometidas de um feroz facciosismo, na base do princípio da fraternidade – ou morte. As revoluções devoram os seus filhos. Por outro lado, os políticos prudentes, rejeitando a ilusão de uma verdade política absoluta, diante da qual todo cidadão deve se curvar, entendem que as estruturas políticas e econômicas não são meros produtos de uma teoria, a serem erigidos num dia e demolidos noutro; pelo contrário, instituições sociais se desenvolvem ao longo dos séculos, como se fossem orgânicas. O reformador radical, proclamando-se onisciente, derruba todos os rivais para chegar mais rapidamente ao Paraíso terreno. Conservadores, em nítido contraste, têm o hábito de jantar com a oposição.

Na frase anterior utilizei, deliberadamente, a palavras conservador, na realidade, como sinônimo da expressão “político prudente”. É o líder conservador que determinado a resistir a todas ideologias, é guiado pelo que Patrick Henry (1736-1799) chamou de “o lume da experiência”. No século XX, foi o conjunto das opiniões geralmente denominado de conservador que defendeu as “coisas permanentes” contra os assaltos dos ideólogos.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, o público norte-americano tem visto, de modo cada vez mais favorável, o termo conservador. Pesquisas de opinião sugerem que, em política, a maioria dos eleitores se considera conservadora. Se eles entendem bem os princípios políticos conservadores, isso é outra questão.

No meio da segunda administração do presidente Ronald Reagan (1911-2004), um estudante universitário de minhas relações conversava, em Washington, D.C., com um jovem que havia conseguido um cargo político na administração federal. Aquele jovem e inexperiente homem público começou a falar de uma “ideologia conservadora”. O universitário recordou-lhe, de modo algo ríspido, o significado maléfico da palavra “ideologia”. “Bem, você sabe o que quero dizer”, respondeu-lhe o jovem político, meio sem jeito.

De toda forma, não é certo que aquele recém-empossado funcionário público soubesse, ele mesmo, o que verdadeiramente significava aquilo. Será tinha em mente ideologia como um corpo de princípios políticos bem estruturados? Queria ele talvez descobrir um conjunto de fórmulas simplistas, pelas quais o capitalismo pudesse se estender a todo o mundo? Ou desejava, de fato, derrubar, por meio de ações violentas, nossa ordem social vigente e substituí-la por uma sociedade artificial mais próxima de seus ideais?

Vivemos numa época em que o significado de antigas palavras, como tantas outras coisas, se tornou inseguro. “As palavras se distendem, / Estalam e muitas vezes se quebram, sob a carga”, como T. S. Eliot (1888-1965) o diz. “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1). Hoje em dia, porém, o Verbo está sendo confrontado pela ideologia gigante, que perverte a palavra falada e escrita.

Não são apenas os talentos políticos emergentes de nosso tempo que não conseguem apreender o uso apropriado de certas palavras importantes – e que, particularmente, entendem mal o emprego de ideologia. Uma senhora idosa me escreve em defesa do antigo movimento chamado “Rearmamento Moral”, que, há três décadas, afirmava oferecer uma ideologia aos Estados Unidos. “Talvez eu me engane, mas sempre me pareceu que ideologia significa o poder das ideias”, diz essa correspondente. “O mundo é governado por ideias, boas e más. Precisamos de uma grande ideia ou de um ideal para substituir as falsas ideias, hoje dominantes. Quanto tempo podemos sobreviver como uma nação livre, uma vez que a palavra liberdade foi corrompida?”

A conclusão dessa senhora é perspicaz. Contudo, tenho de acrescentar, “Por quanto tempo podemos sobreviver como uma nação livre, uma vez que a palavra ideologia, com seu poder corruptor, foi confundida como a guardiã da liberdade ordenada?”

Não tenho a intenção de escarnecer, pois encontro essa confusão em pessoas que conheço bem e respeito profundamente. Uma dessas pessoas, uma escritora capaz e de espírito arrojado retruca possuir dicionários – Webster e Oxford – que discordam da definição mais extensa de ideologia proposta por Russel Kirk. “Se o Oxford está certo e ideologia significa ‘a ciência das ideias’, não poderiam ser boas ideias? Concordo plenamente que muitas ideologias causam grande mal, mas certamente não são todas, não é? De qualquer maneira, sou uma pragmatista inata”, conclui a senhora, “e a semântica não é o meu ponto forte”.

Não, senhora, todas as ideologias causam confusão. Fico mais animado pela carta escrita por um publicista conservador influente e experiente, que aplaude a minha crítica aos jovens ideólogos que se imaginam conservadores, e aos jovens conservadores esperando apaixonadamente se converterem em ideólogos. Esse último correspondente concorda comigo que a ideologia está fundamentada meramente sobre “ideias” – isto é, sobre abstrações, sonhos, sem relação, na maior parte das vezes, com a realidade pessoal e social; enquanto as visões conservadoras estão fundadas sobre costumes, convenções, na longa experiência da espécie humana. Ele se vê confrontado, de tempos em tempos, por jovens, que se autodenominam conservadores, que não têm noção alguma de prudência, temperança, compromisso, tradições da civilidade ou patrimônio cultural.

“Os bosques estão cheios dessas criaturas”, escreve esse cavalheiro. “O ‘movimento’ conservador parece ter criado uma nova geração de inflexíveis ideólogos. Preocupa-me encontrá-los tão numerosos e em tantas instituições. É claro, vários são libertários, não conservadores. Do que quer que se chamem, são ruins para nosso país e nossa civilização. A concepção de vida deles é brutal, desumana”.

Amém. O conservadorismo é uma ideologia? Somente se, junto com Humpty Dumpty, arrogarmo-nos a prerrogativa de forçar as palavras a significar o que quer que desejemos que signifiquem, de modo que a questão “é saber quem é que vai mandar – só isso”. Que nós, conservadores, conservemos a língua inglesa, juntamente com várias outras boas coisas que restam. Levantemos a bandeira de um vocabulário honesto e preciso. Venturemo-nos, sejam quais forem os riscos, a lutar contra a “novafala” dos ideólogos.

O triunfo da ideologia seria o triunfo do que Edmund Burke chamou de “mundo antagonista” – o mundo da desordem; ao passo que aquilo que o conservador busca conservar é o mundo da ordem que herdamos, ainda que em estado imperfeito, de nossos ancestrais. A mentalidade conservadora e a ideológica gravitam em polos opostos, e a controvérsia entre as duas mentalidades não será menos ardorosa no século XXI do que o foi no século XX. Possivelmente, este ensaio poderá auxiliar aqueles da nova geração que têm a coragem de fazer oposição aos zelotas ideológicos.

FONTE: A Política da Prudência – Russell Kirk 

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