O que foi e o que ainda é o comunismo – Vladimir Tismăneanu

O que foi e o que ainda é o comunismo – Vladimir Tismăneanu

O que foi e o que ainda é o comunismo – Vladimir Tismăneanu

Projeto transcendente e soteriologia laica, utopia quiliástica e promessa emancipadora, determinismo rígido e voluntarismo febril, o comunismo foi (e apresso-me a dizê-lo, embora esteja ele num ponto de indubitável declínio, ainda é) uma doutrina radical econômica, moral, social e cultural, fundada na realização de alguns escopos fundamentalmente transformadores. Devido aos seus objetivos universalistas, às promessas escatológicas e às ambições omniabrangentes, foi sempre descrito corretamente como uma religião política ou laica. O escopo último do comunismo era a criação de uma nova civilização, construída com base no Homem Novo. Dois fatores definiam esta doutrina: o papel privilegiado do partido e a transformação revolucionária da natureza humana. O comunismo promovia uma nova concepção acerca da existência humana (sociedade, economia, psicologia social e individual, arte). Por causa disso, a criação do Homem Novo representava a finalidade suprema da ação política. O escopo do comunismo era o transcender a moralidade tradicional, embora se lhe pudesse imputar o relativismo moral. Atribuiu ao partido sua própria moralidade, acordando-lhe apenas este direito de definir o intelecto e o escopo último da existência humana. O Estado tornou-se o valor supremo, absoluto, no contexto da doutrina escatológica da revolução. Pelo culto da unidade absoluta, pelo caminho em direção à salvação pelo conhecimento da história, o comunismo deu origem a um projeto novo, exaustivo do ponto de vista social e político, fundado na purificação das comunidades que se encontravam sob o seu encanto ideológico. Seu projeto revolucionário era total e totalizador. Em sua qualidade de mito político com um formidável poder de influência, o comunismo prometia a libertação imanente, a oportunidade de ser próspero, a liberdade e a igualdade. De fato, no curso do século XX, a Weltanschauung comunista tornou-se o fundamento dos experimentos políticos totalitários fundados na ideologia, que se soldaram com perdas humanas aterradoras.

Os fundadores do comunismo como doutrina global, moderna, revolucionária, de fato, uma religião política, foram Karl Marx e Friedrich Engels. O marxismo foi, antes de tudo, uma tentativa demiúrgica de eliminar a detestada ordem burguesa, fundada na economia de mercado (a propriedade privada), de destruir as relações sociais existentes e de organizar as forças sociais revolucionárias para a confrontação final que vai conduzir ao “salto do império da necessidade no império da liberdade”. Marx fez uma distinção clara entre a sua teoria revolucionária e as outras versões do socialismo (cristão, reacionário-feudal, pequeno-burguês, crítico-utópico). A visão ambiciosa, radical de Marx estava ligada pela sua convicção firme, principalmente depois de 1845, de que tinha o privilégio de conhecer o postulado da infalibilidade epistêmica, considerando que a sua Weltanchauung era essencialmente científica, ou seja, não utópica. Para Marx, a convicção de que a história era governada por leis significava que, uma vez aceitas essas leis, a Razão (o pensamento) e a Revolução (a ação) podiam-se fundir na mudança global, proletária, libertadora.

O Manifesto do Partido Comunista, publicado em fevereiro de 1848, foi um dos textos essenciais dessa doutrina. A obra estipulava que o proletariado era a classe social escolhida pela história, o libertador de muito esperado que vai reestabelecer a unidade perdida da espécie humana (Gattungswesen). A sua tese fundamental referia-se ao lugar central da luta de classe (violência histórica) e o desenvolvimento da sociedade. Para Marx (e mais tarde, para os filósofos marxistas do século XX, Antonio Gramsci e Georg Lukács), a classe revolucionária simbolizava o ponto de vista do todo, criando assim as premissas epistêmicas necessárias ao acesso à verdade histórica. Em nome da democracia proletária (autêntica), as liberdades formais podiam ser suspensas, e até mesmo suprimidas. O mito marxista da classe messiânica, o cerne do comunismo, levou ao desenvolvimento de um projeto revolucionário impregnado do sentido de missão profética e de predestinação carismático-heróica. Marx deu um veredicto fundamentalmente apocalíptico: já que a burguesia é culpada pela distorção bárbara da vida do homem, mereceu seu destino. O proletariado devia ser, do ponto de vista histórico e moral, o coveiro dela.

A visão de Marx acerca do universo social era construída em primeiro lugar – mas não apenas – em termos do determinismo social e econômico. A liberdade era para Marx e para os seus discípulos uma “necessidade entendida”, ou seja, esforços de levar à realização pressuposta dos escopos da história. Toda a realidade humana subordina-se às leis dialéticas do desenvolvimento, e a história era projetada numa entidade soberana, cujo ditado era mais que tudo dos questionamentos humanos. Marx declarou sua teoria social como fórmula científica fundamental. Não reconhecer-lhe a validade representa, para Marx, e para seus sucessores comunistas, uma prova de cegueira diante da história, da falta de imparcialidade ideológica ou de uma “falsa consciência.” No pólo oposto, o ponto de vista proletário, celebrado por Marx e cristalizado sob a forma do materialismo histórico, era considerado gerador do conhecimento essencial e da receita de felicidade universal.

O ingrediente que permitia a realização da missão revolucionária era a consciência revolucionária de classe. Com a ajuda desta, a pré-história humana começava a ter fim, e a história real podia começar. Para Marx, a consciência de classe era um resultado orgânico do desenvolvimento político e ideológico do proletariado. De acordo com Friedrich Engels, por exemplo, “o proletariado alemão era o herdeiro da filosofia clássica alemã”. O jovem Marx considerava que existia uma relação dialética e, em consequência, recíproca, entre “a crítica das armas” e “a arma da crítica” no processo de conquista da filosofia – Aufhebung. Os intelectuais revolucionários eram os que tinham criado a doutrina, mas os proletários não eram percebidos como uma massa amorfa em quem um grupo de “professores” auto-declarados tinha o dever de inocular a consciência da “verdade histórica”. Com tudo isso, a Tese XI acerca de Feuerbach devida a Karl Marx exprimiu da melhor maneira o ethos transformador do comunismo: “Os filósofos não fizeram senão interpretar o mundo de diferentes modos; importante é transformá-lo”. O pensamento marxista consagrou uma “visão larga” (Eric Weitz) acerca do desenvolvimento histórico: uma vez que serão afastados os restos de alvenaria do passado, o fator escolhido pela história abrirá o caminho para uma nova sociedade, que conduzirá à realização plena do espírito humano.

O marxismo passava por ciência e não por um conjunto de princípios morais; em consequência, a revolução que pregava era uma “parte de um mecanismo histórico, depurado, portanto, de valores” (Eugen Weber). Esta pretensão profética conduziu à crença fanática, quase mística dos adeptos, que abraçaram a visão apocalíptica, quiliástica da matemática revolucionária do comunismo. Assim, o comunismo era, ao mesmo tempo, uma escatologia (uma doutrina de salvação da humanidade) e uma eclesiologia (uma ideologia do partido/ do movimento revolucionário). A realidade como tal era definitivamente objetivada e devia ser ultrapassada, de um lado, pela emancipação e revolução do proletariado; de outro, pela utopia de uma sociedade sem classes sociais. Em consequência, a visão comunista acerca da sociedade futura era fundada numa “ditadura sobre as necessidades” (Ágnes Heller, Ferenc Fehér e György Márkus). Este pressupunha a dissolução do indivíduo autônomo num quadro devorador do controle absoluto, a politização desastrosa do psíquico, a manipulação da subjetividade, a tentativa de aniquilar o espaço privado como último santuário de si. O comunismo visava não apenas à dominação sobre o político, mas também sobre o fundamento biológico da sociedade. Era um experimento completo de engenharia social. Uma vez que se construiu a imagem acerca da modernidade no princípio de uma comunidade à parte, homogênea do ponto de vista social, que fazia seu caminho pelo deserto da história, da escuridão para a luz, não podia existir senão uma solução para os que não conseguiam conformar-se com os critérios que ela pressupunha: a estigmatização, a eliminação e, em casos extremos, o extermínio. A escatologia era uma forma de teodiceia racionalizada: Deus era substituído pela História. A História tinha uma única direção, porque se desenvolvia da liberdade limitada para a liberdade absoluta. A liberdade, a seu turno, era entendida como vencedora da necessidade. O império da necessidade era uma região onde a economia não podia assegurar a igualdade plena entre os seres humanos, onde o político dependia de interesses partidários, e a sociedade era atomizada. Em contraste, o império da liberdade era a região onde se manifestava a identidade entre existência e essência. Neste contexto, a existência humana podia desenvolver-se plenamente, e a condição para a liberdade geral dependia da liberação individual. Em consequência, na base do comunismo estava um fundamentalismo teleológico. O objetivo final era a Cidade de Deus na terra, ou seja, o triunfo do proletariado.

O principal problema do projeto marxista era a falta de sensibilidade diante da estrutura psicológica da humanidade. Devido a seu culto pela totalidade, a teoria social marxista, que pretendia ser o último arquétipo explicativo, e preparou o terreno de sua própria degeneração, na tradução bolchevique (leninista), no dogma e na perseguição impiedosa dos heréticos. A ênfase que Marx punha na emancipação humana como absorção consciente da sociedade por algum indivíduo, a equivalência dos antagonismos sociais com a luta de classe conduziram a uma estratégia de eliminação dos intermediários (as leis, os institutos, etc) que regulamentavam a relação entre a sociedade civil e o estado. Marx não conseguiu dar instruções quanto à realização da unidade social. A visão utópica, escatológica do pensamento político de Marx foi traduzida num programa revolucionário de ação por Vladimir Ilitch Lênin (nascido UIianov). Esta discrepância deixou livre o caminho para a interpretação criativa de Lênin acerca da necessidade de conduzir à versão bolchevique de salvação do ser humano. Na visão de Lênin, o partido monolítico vanguardista passava a ser o detentor da esperança da humanidade, uma fraternidade estreita de militantes iluminados, e, em consequência, o verdadeiro veículo da liberdade humana. A combinação de marxismo e partido assentou a política comunista no caminho da auto-purificação (depuração permanente e ofensiva socialista).

Lênin foi um revolucionário russo, fundador do Partido Bolchevique e da União Soviética. Nasceu em abril de 1870, numa família de classe média, e morreu em janeiro de 1924 como líder não contestado do partido e do estado. Sob a condução de Lênin, o Partido Bolchevique organizou a revolução de outubro de 1917 contra o governo do Império Russo e colocou as bases do sistema autoritário do partido único, que teve fim em dezembro de 1991. Como adolescente, Lênin foi profundamente atingido pela execução de seu irmão mais velho, e como estudante de direito implicou-se em atividades revolucionárias clandestinas, por causa das quais passou por prisões e por deportações. Insatisfeito com a falta de radicalismo de seus colegas social-democratas, Lênin sustentou a necessidade da criação de um novo tipo de movimento político revolucionário. A sua visão acerca do novo partido foi formulada na obra Que fazer? (1902) que articulava o conceito leninista da prática revolucionária do século XX. O conceito de Lênin levou, no quadro da democracia social russa, à ruptura entre os moderados (mencheviques) e os radicais (bolcheviques). O leninismo (também denominado bolchevismo), consta, principalmente, na teoria de V. I. Lênin acerca do partido revolucionário de vanguarda, na doutrina da revolução proletária numa época imperialista e na ênfase colocada na ditadura do proletariado como uma nova forma estatal que começava a aparecer depois do desmoronamento da velha regulamentação burguesa.

Os esforços de Lênin manifestaram-se, em primeiro lugar, no domínio político revolucionário e da construção de uma organização revolucionária que fosse capaz de coordenar e dirigir as tentativas da classe trabalhadora de tomar o poder, de esmagar o velho mecanismo estatal e de construir uma sociedade comunista sem classes sociais. Mesmo no começo, o regime leninista fundou-se na violência e na repreensão de qualquer forma de oposição política. Esses traços autoritários de Lênin foram exacerbados ulteriormente por Stálin, que transformou a União Soviética num estado totalitário. O humanismo bolchevique era condicionado apenas pelo sucesso da causa em que estava envolvido. A existência do indivíduo como tal tinha importância no mundo apenas à medida que contribuía para a construção da utopia social. O conceito de Lênin acerca da moralidade partia de um princípio formulado pelo revolucionário russo do século XIX, Serghei Netchaiev, em O catecismo revolucionário: “É moral tudo o que contribui para o triunfo da revolução. Imoral e criminoso é tudo o que se coloca em seu caminho”. Em consequência, o leninismo era baseado numa “racionalidade do escopo” (T. H. Rigby). Pressupunha uma concepção política radicalmente utilitária e transformista que se concretizasse, no final, na divinização de um partido/estado mítico com direito de vida e de morte sobre seus súditos.

Para Lênin, o fardo da revolução comunista antecipado por Karl Marx dependia de maturidade e vontade política do partido revolucionário. Quando Lênin começou a sua carreira política, os social-democratas de todo o mundo estavam reunidos na Segunda Internacional. O marxismo desta associação internacional rejeitava os meios revolucionários de derrubada da ordem estabelecida e enfatizava o papel das reformas evolutivas. Lênin considerava que este tratamento era muito moderado. Cria que a esquerda, como tal, a classe trabalhadora, não se envolveria nunca num movimento revolucionário total para a destruição do capitalismo. Assim como Marx, Lênin via a revolução proletária como um fenômeno global, mas modificou alguns princípios de base da teoria marxista. Lênin observou a passividade dos trabalhadores dos países com indústria avançada e explicou-o como sendo a habilidade da burguesia de cooptar a classe trabalhadora no sistema. Segundo Lênin, a burguesia conseguira corromper ideologicamente os proletários e os partidos deles. Era, portanto, importante a criação de um novo tipo de partido político que recusasse qualquer entendimento com as forças dominantes existentes e que se exercitasse, nesses últimos, o poder político exclusivo. Para Lênin uma organização revolucionária bem estudada, unida intimamente e organizada, estruturada de acordo com o modelo militar, era necessária para induzir a consciência revolucionária ao nível do proletariado e conduzir os trabalhadores na luta revolucionária. O partido era a encarnação da lógica da história e os partidários dele deviam levá-lo à realização de ordens sem hesitação nem reserva. A disciplina, a manutenção dos segredos e da hierarquia rígida eram essenciais para tal partido, principalmente nas condições de clandestinidade (como acontecia na Rússia). O principal papel do partido era despertar a consciência proletária de si e introduzir a doutrina (crença) revolucionária no nível do proletariado latente. Em vez de basear-se no desenvolvimento espontâneo da consciência em fileiras da classe trabalhadora, o leninismo considerava o partido um agente catalisador de conhecimento revolucionário, da vontade e da capacidade de organização das massas exploradas: “Sem uma teoria revolucionária, […] não pode existir o movimento revolucionário”. O leninismo acrescenta ao reconhecimento da importância da propaganda ideológica a ênfase sobre a organização revolucionária, que passava a ser o pilar da prática revolucionária. Lênin é o que impôs a aura do partido de tipo novo, que passou a ser uma marca da política radical do século XX. O partido era o agente histórico, porque reunia uns aos outros os profissionais revolucionários, os que, reunindo suas habilidades de ação e pensamento, reconquistaram “a graça de um ser originário harmonioso” (Igal Halfin).

O absolutismo ideológico, a sacralização do escopo final, a suspensão das faculdades críticas e o culto da política do partido como expressão perfeita da vontade geral estavam presentes no projeto bolchevique inicial. Lênin impôs dois elementos fundamentais na concepção bolchevique do político: a lei como epifenômeno da moral revolucionária e como heteronomia da ação individual. A aniquilação da democracia na prática leninista é determinada pela natureza do partido como substituto laico da aura unificadora, omniabrangente do aparato político do soberano absoluto (o rei medieval). Em outras palavras, o modelo leninista defende a homogeneização integral do espaço social como ideal político e pragmático. A ideologia percorre toda a dinâmica do regime, “preparando e dando início à ação, sem a qual o governo, a violência e a socialização se tornam impossíveis” (Michael Geyer).

Lênin reviu a teoria marxista clássica referente à posição do centro revolucionário no Ocidente capitalista desenvolvido. Em O imperialismo, o estágio mais alto do capitalismo, uma das suas obras mais importantes, Lênin defendia que aparecera um estágio novo, final do capitalismo, em que o monopólio substituíra a competição, a concentração do capital atingira o ponto máximo, e a guerra entre os poderes capitalistas se tornara inevitável. Da perspectiva de Lênin, o imperialismo era culpado pelos horrores indescritíveis da guerra mundial. O sistema capitalista global deveria ceder, mas a sua queda, defendia Lênin, haveria de produzir-se pelos elos mais fracos da rede capitalista, mais rapidamente no Leste do que no Ocidente. A Rússia retrógrada, com suas contradições sociais e econômicas insolúveis, parecia ser o país onde a revolução poderia triunfar primeiro. As massas estavam profundamente insatisfeitas pela velha ordem, furiosas com os custos da guerra e preparadas para tomar parte no movimento revolucionário. A burguesia russa não era suficientemente forte para opor uma resistência decisiva às massas radicalizadas, e o proletariado estava suficientemente desenvolvido para ter consciência de pertencer a uma classe, devido à riqueza de atividade do Partido Bolchevique.

Na sua obra O Estado e a revolução, escrita em 1917, alguns meses antes da tomada do poder por alguns bolchevistas, Lênin afirmava que o aparato de estado militar-burocrático da burguesia devia ser afastado e substituído pelos conselhos revolucionários (órgãos de democracia direta, participativa). Mais tarde, quando o estado soviético se confrontou com a fome, com a pobreza, com a resistência dos Exércitos Brancos e com as intervenções estrangeiras, Lênin desenvolveu a teoria da ditadura do proletariado, pela qual entendia um regime político em que a autoridade centralizada era exercida pelos agentes administrativos do partido-estado. A idéia inicial, de fundar a democracia partindo da base e de oferecer às massas o poder, foi substituída pela ênfase na importância do aparato de estado reconstruído, que, segundo Lênin, era indispensável para a proteção da revolução e continuação dos seus escopos principais. É verdade que Lênin via este estado de coisas como temporário e não renunciou nunca à idéia de que a revolução russa seria não a primeira, mas a única revolução proletária nos decênios que viriam.

A recuperação das prerrogativas estatais era para Lênin “um mal necessário”; procurou justificar a noção de ditadura proletária, definindo-a como ditadura da maioria da população (sendo incluídos os camponeses pobres), o que significava que não era exatamente uma ditadura. Como forma, dizia Lênin, era uma ditadura, mas como substância, tendo em vista o fato que representava os interesses e as aspirações da grande maioria da população, era uma democracia real, verdadeira. Mais tarde, Stálin vai transformar cada traço do conceito leninista de ditadura do proletariado num dogma, para justificar seu regime repressivo, aterrorizante. Isto foi possível porque a teoria de Lênin acerca da ditadura do proletariado partia do seu desprezo pela legalidade: “A ditadura revolucionária do proletariado – escrevia Lênin em 1918 – é o poder obtido e mantido pela violência do proletariado diante da burguesia, poder que não é restringido pela lei”. Lênin, no entanto, estava convencido de que estas medidas temporariamente excepcionais, que pressupunham a perseguição dos dissidentes e a proibição de todos os partidos políticos além do bolchevique, eram necessárias para a sustentação da revolução na Rússia. Mas, a longo prazo, esperava que a revolução triunfasse no Ocidente e que o relaxamento político e econômico, de algum modo, seria possível. A Nova Política Econômica, iniciada em 1921, indicava a disponibilidade de Lênin de renunciar à visão econômica utópica inicial e de permitir a existência de uma economia mista (com a introdução de alguns elementos significativos da economia de mercado na economia controlada pelo estado, na indústria, no comércio exterior, e no sistema bancário). A última batalha de Lênin, que coincidiu também com a deterioração dramática de sua saúde, foi um confronto do líder esmagado pela doença com o despotismo crescente de Stálin. Nos seus últimos escritos, Lênin pediu que Stálin fosse afastado da função de secretário geral, mas a sua solicitação não foi atendida pela elite bolchevique. Stálin já controlava o aparato do partido/estado e passava como o discípulo mais leal de Lênin.

Depois da morte de Lênin, aconteceu uma crispação feroz entre os líderes bolcheviques. Em seguida, em 1929, Stálin venceu os adversários e iniciou o sistema de planejamento, criando um partido pós-leninista, em que punha amplamente sua marca, e uma tirania fortemente centralizada e ideologizada. No entanto, as sementes do regime stalinista tinham sido plantadas por Lênin. De fato, Stálin não criou instituições novas e não acrescentou capítulos significativos à doutrina leninista. Levou ao extremo a lógica da intolerância do leninismo e transformou a URSS num estado policialesco. O Partido Comunista foi transformado, de uma elite revolucionária numa casta burocrática cujo único escopo era manter e aumentar o poder e os privilégios do líder. Com o tempo, a ditadura do proletariado tornou-se um simples lema, que legitimava o domínio absoluto de Stálin e a repressão da polícia secreta sobre a população. Invocando a luta de Lênin contra os fracionamentos, Stálin destruiu completamente qualquer sinal de democracia de partido, e perseguiu metodicamente todos os oponentes (reais ou imaginários) e impôs uma ditadura monolítica baseada em depurações permanentes e pelo terror em massa. Na ausência física do líder supremo, Lênin, que encarnava o poder absoluto do partido, a comunidade imaginada pelos discípulos leninistas devia reinventar-se construindo para si um carisma nos escritos dos pais fundadores. A tradição inventada pelo marxismo-leninismo foi então projetada nas fileiras do partido como um meio de estabilizar a identidade normativa deste. “A volta ao leninismo” tornou-se um tema importante de oposição anti-stalinista, principalmente entre os apoiadores de Trotsky. Mais tarde, depois da morte de Stálin, em 1953, Nikita Krushev proclamou a volta das normas leninistas de vida de partido e denunciou “o culto à personalidade” imposto por Stálin (ou seja, a adoração quase religiosa do condutor supremo) como sendo não leninista. Nos anos de 1980, Mikhail Gorbachev aprofundou a crítica de Krushev sobre o stalinismo e procurou introduzir o pluralismo nas instituições soviéticas. Nos seus esforços de democratização, Gorbachev foi além da lógica do leninismo e abandonou assim o conceito de ditadura do proletariado, como também a pretensão do partido de monopolizar o poder.

Em 1919, Lênin criou a Terceira Internacional (Comunista) – o Comintern. Criticara, anteriormente, a Segunda Internacional, acusando-a de perda do fervor revolucionário e de cumplicidade com os parlamentos e governos burgueses. O Comintern consagrou a centralidade de Moscou e o seu papel hegemônico no mundo comunista. Para que um partido fosse aceito no Comintern, devia consentir sem reservas na realização das 21 condições, inclusive na subordinação completa diante dos ditados soviéticos. Lênin criou o Comintern como instrumento para a exportação da revolução bolchevique e para permitir à Rússia soviética sair do “estrangulamento imperialista”. Mais tarde, Stálin transformou-o num simples instrumento de política externa soviética e, implicitamente, do imperialismo russo. O Comintern foi dissolvido em 1943, mas os partidos comunistas continuaram a percorrer os passos políticos stalinistas. Depois da Segunda Guerra Mundial, os partidos leninistas tomaram o poder na Europa Central e Oriental, na China, na Coréia do Norte e no Vietnã do Norte (Na Mongólia já havia desde 1929 um regime de tipo soviético). Depois, nos anos de 1960, Fidel Castro reconheceu publicamente a adesão ao leninismo e proclamou a natureza comunista da revolução de Cuba. Em todos esses casos, o comunismo representava a soma de técnicas (táticas) políticas e ideológicas seguidas pelos partidos revolucionários para açambarcar e consolidar os regimes ditatoriais monopolizadores. O historiador Martin Malia etiquetou corretamente os sistemas comunistas como ideocracias partocráticas. A única pretensão deles de legitimação derivava da estrutura organizada pelas idéias, compartilhadas pela elite e transmitidas no nível das massas, e segundo as quais o Partido Comunista era o único beneficiário do acesso direto à verdade histórica.

Lênin modificou o marxismo pelo fato de ter atribuído ao partido o papel de vanguarda da revolução, mais do que a classe proletária; colocou a explosão revolucionária mais num país menos desenvolvido do que num desenvolvido (na Rússia, não na Europa Ocidental), e fez da ditadura do proletariado o núcleo da sua teoria acerca do estado comunista. Em suma, devido à contribuição de Lênin à russificação do marxismo, o leninismo representava uma síntese entre os valores ocidentais, social-democratas, e as tradições russas de violência revolucionária. Leon Trotsky (nascido Bronstein) foi outro revolucionário russo importante, que inicialmente se opôs às tendências ditatoriais leninistas. Na época da revolução de outubro de 1917, Trotsky passou a ser o associado político mais próximo de Lênin e foi o primeiro ministro bolchevique (comissário do povo) da defesa e dos negócios externos. Mais tarde, depois da morte de Lênin, protegeu o leninismo revolucionário diante de Stálin. Trotsky acusou Stálin de abandono do proletariado do exterior pelas decisões de concentração exclusiva acerca da construção do socialismo na URSS e de destruição de qualquer sinal de democracia do quadro do partido leninista. Menos dotado no domínio da teoria do que Lênin ou Trotsky, Stálin codificou e ultrassimplificou o leninismo, ajustando-o às necessidades e às expectativas da burocracia média de partido. Em vez de uma doutrina revolucionária, o leninismo de Stálin representava um meio de legitimar o exercício do poder para a burocracia de partido. Mao Tze-tung foi um comunista chinês que adaptou os princípios mais importantes do leninismo à situação da China. Reconhecendo o poder limitado do proletariado chinês, Mao desenvolveu a teoria de Lênin no que diz respeito à ditadura revolucionária dos operários e dos camponeses e levou os comunistas chineses ao poder, em 1949. Mao criticou Kruschev por renunciar a alguns princípios stalinistas de base, acrescentando que a luta de classes continuou e intensificou-se nas condições da ditadura do proletariado. As elites revolucionárias do Terceiro Mundo se identificaram com o anti-imperialismo e o anticapitalismo inflamado de Mao, mas também com a teoria da guerra de guerrilha no meio rural.

Marx proclamava o comunismo como a solução autêntica do conflito entre o homem e a natureza e entre o homem e o homem; “o comunismo é a adivinha resolvida da história e sabe que representa a solução”. A explicação para o fado exemplar e as consequências desta doutrina depende de alguns fatores essenciais: a visão acerca dos adeptos – uma elite superior cujas finalidades utópicas santificam os métodos mais bárbaros; a negação do direito à vida para os que são definidos como “parasitas degenerados e vermes” – a desumanização deliberada dos inimigos/vítimas definidos como tais pelo estado; e o que identifica de modo correto o historiador francês Alain Besançon, a perversidade ideológica do centro do pensamento totalitário: a falsificação da idéia do Bem (la falsification du Bien). O comunismo procurou compreender e filtrar pela sua matriz ideológica tudo o que tinha potencial para o discurso público. Procurou controlar e mediar qualquer narração pela que se autodefinia. Criou “um novo tipo de hegemonia cultural, que procurava realizar uma “revolução antropológica” através do apelo a uma política essencialmente transformadora e ritualística” (Roger Griffin). As reformas de Mikhail Gorbachev (conhecidas como glasnost e perestroika) visavam à racionalização do sistema soviético, injetando uma vida nova nas instituições leninistas, na situação geral e na economia, condenando as atrocidades stalinistas e reconduzindo o entusiasmo ideológico bolchevique do começo. De fato, ele procurou retomar os experimentos anteriores destinados a humanizar o socialismo (a Revolução Magiar, a Primavera de Praga, o revisionismo marxista na Polônia e na Iugoslávia). Assim como demonstraram as revoluções de 1989, o comunismo esgotara o poder de atração, o que conduziu à queda dos regimes leninistas da Europa Central e do Leste.

Em dezembro de 1991, o império multinacional denominado URSS foi dissolvido. A ruína do comunismo na Europa ofereceu espaço às mitologias políticas alternativas, fato que determinou a proliferação do que denomino os fantasmas da salvação: substitutos ideológicos cuja função principal é unificar o discurso público e oferecer aos cidadãos uma fonte de identidade fácil de reconhecer como parte de uma comunidade vagamente definida etnicamente (ou politicamente). Para terminar, gostaria de citar o filósofo polonês Leszek Kolakowski, um intelectual que experimentou assim a sedução do marxismo como a desilusão amarga na sua aplicação: “A auto-divinização da humanidade, a quem o marxismo ofereceu a expressão filosófica, terminou como todas as tentativas desse gênero, sejam individuais ou coletivas: revelou-se como o elemento de farsa das ligações entre os homens”.

FONTE: Do Comunismo – Vladimir Tismaneanu

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