Escravos voluntários do Estado assistencialista – C. S. Lewis

Escravos voluntários do Estado assistencialista – C. S. Lewis

Escravos voluntários do Estado assistencialista – C. S. Lewis

Progresso [1] significa movimento em direção desejada, e nós não temos todos os mesmos desejos para nossa espécie. Em Possible Worlds (Mundos possíveis),[2] o professor Haldane criou um futuro em que o homem, prevendo que a Terra logo se tornaria inabitável, adaptou-se para migrar para Vênus modificando drasticamente sua fisiologia e abandonando a justiça, a piedade e a felicidade. O desejo limita-se à sobrevivência. Bem, eu me preocupo muito mais com como a humanidade vive do que com por quanto tempo. Para mim, progresso significa aumentar a bondade e a felicidade em cada indivíduo. Parece-me que para a espécie, assim como para cada homem, a simples longevidade é um ideal desprezível.

Por isso, avanço mais do que C. P. Snow em remover a bomba H do centro do cenário. Como ele, não sei se, caso ela matasse um terço de nós (o terço a que pertenço), isso seria ruim para os remanescentes. Como ele, não penso que morreremos todos. Mas e se morressem? Sendo cristão, tenho certeza de que a história humana terá fim algum dia, e não cabe a mim aconselhar o Onisciente quanto à melhor data para terminar a obra. Preocupo-me mais com o que a bomba já vem fazendo.

Há jovens que tomam a ameaça como razão para envenenar todos os prazeres e escapar de todas as obrigações do presente. Será que não sabem que, com bomba ou sem ela, todos morrem (e muitos de formas horrorosas)? Não adianta chorar e se lamentar por isso.

Tendo removido o que considero um obstáculo, volto à questão real. As pessoas estão se tornando, ou é provável que se tornem, melhores ou mais felizes? Obviamente, a resposta é apenas uma conjectura. A maior parte das experiências individuais (e não existe outro tipo) jamais chega aos noticiários e muito menos aos livros de história. A pessoa tem noção imperfeita até dela mesma. Estamos reduzidos a generalidades e, mesmo assim, é difícil encontrar um equilíbrio. Sir Charles enumerou muitos avanços reais. E contra eles precisamos apresentar Hiroshima, Black and Tans,[3] Gestapo, Ogpu,[4] lavagem cerebral, campos de serviços forçados na Rússia. Talvez sejamos mais bondosos com as crianças; mas, aí, pioramos no trato dos idosos. Qualquer médico pode testemunhar que até os ricos se recusam a cuidar dos pais. “Será que não podemos colocá-los em algum tipo de Lar?”, indagou Goneril.[5]

Creio que mais útil do que tentar encontrar equilíbrio é lembrar que a maioria desses fenômenos, bons ou maus, se torna possível por dois fatores que, provavelmente, determinarão a maioria dos acontecimentos durante algum tempo.

O primeiro é o avanço e a crescente aplicação da ciência. Como meio para o fim que se busca ela é neutra. Seremos capazes de curar, e de produzir, mais doenças – guerra bacteriológica e não as bombas talvez façam descer a cortina final –, de aliviar e infligir mais dores, de poupar, ou desperdiçar, os recursos dos planetas de forma mais ampla. Podemos nos tornar mais bondosos ou mais perniciosos. Penso que faremos as duas coisas, consertando uma e estragando a outra, removendo antigos sofrimentos e produzindo outros, protegendo-nos em um lugar e nos colocando em risco em outro.

O segundo é a relação modificada entre governo e súditos. Sir Charles menciona nossa nova atitude perante o crime. Menciono os trens lotados de judeus entregues às câmaras de gás alemãs. Parece chocante sugerir um elemento em comum, mas penso que existe. Segundo a visão humanitária, todo crime é patológico e requer não punição retributiva, mas, sim, cura. Isso afasta o tratamento do criminoso dos conceitos de justiça e de retribuição. “Simples cura” não tem sentido.

Na antiga visão da opinião pública, poderia haver protesto contra uma punição (houve protesto contra nosso antigo código penal), considerando-a excessiva, mais do que o homem “merecia”, questão ética em que qualquer pessoa podia ter opinião. No entanto, o tratamento como remédio só pode ser julgado pela probabilidade de sucesso, questão técnica em que apenas os especialistas podem se pronunciar. Com isso, o criminoso deixa de ser pessoa dotada de direitos e de deveres, e se torna simples objeto em que a sociedade pode trabalhar. E, em princípio, foi isso que Hitler fez com os judeus. Eles não passavam de objetos, mortos não por retribuição errada, mas porque, na teoria dele, eram uma doença na sociedade. Se a sociedade pode consertar, refazer e desfazer os homens segundo sua vontade, essa vontade pode ser, claro, humana ou homicida. A diferença é importante. De qualquer forma, entretanto, os governantes se tornaram proprietários.

Observe como a atitude “humana” diante do crime poderia operar. Se os crimes são doenças, por que as doenças seriam tratadas de modo diverso dos crimes? E quem, a não ser os especialistas, podem definir doenças? Uma escola da psicologia considera minha religião uma neurose. Se essa neurose um dia se tornar inconveniente para o governo, nada impediria que eu passasse por uma “cura” compulsória. Pode ser doloroso; algumas vezes os tratamentos o são. Mas não adiantará perguntar o que fez para merecer isso. O Encarregado da Correção responderá: “Mas, meu caro, ninguém está te acusando. Não acreditamos mais na justiça de retribuição. Estamos te curando”.

Isso seria nada mais do que aplicação extrema da filosofia política implícita na maioria das comunidades modernas. Tem nos minado sem que percebamos. Duas guerras implicaram vasta restrição da liberdade, e nos acostumamos, embora resmungando, com nossas cadeias. A complexidade cada vez maior e a precariedade de nossa vida econômica forçaram o governo a assumir muitas esferas de atividade que antes eram deixadas sem controle. Nossos intelectuais se renderam primeiro à filosofia escravizante de Hegel, depois à de Marx e, por fim, aos analistas da linguística.

Como resultado, a teoria política clássica, com seus conceitos-chave estoicos, cristãos e jurídicos (lei natural, valor do indivíduo, direitos do homem), morreu. O Estado moderno não existe para proteger nossos direitos, mas para fazer o bem para nós ou nos tornar bons – de qualquer forma, para fazer algo para nós ou nos levar a fazer algo. Com o novo nome de “líderes” para aqueles que antes eram “governantes”, não somos súditos, mas, sim, guardas, alunos e animais domésticos. Não há nada em que possamos dizer a eles: “Isso é problema meu”. Toda nossa vida é problema deles.

Escrevo “eles” porque me parece infantilidade não reconhecer que o governo é e sempre será oligárquico. Nossos senhores efetivos são mais do que um e menos do que todos. Os oligarcas, porém, começam a nos ver de nova maneira.

Penso que aqui reside nosso verdadeiro dilema. É provável que não poderemos, e com certeza não o faremos, percorrer de volta nosso caminho. Somos animais domados (uns por senhores bondosos, outros por donos cruéis) e, provavelmente, morreríamos de fome se saíssemos de nossa jaula. Essa é uma parte do dilema. Em uma sociedade cada vez mais planejada, quanto do que valorizo pode sobreviver? Essa é a outra parte do dilema.

Creio que o homem é mais feliz, e de um modo mais profundo, se possui “a mente que nasceu livre”. Contudo, duvido que isso seja possível sem independência econômica, que a nova sociedade tem abolido. A independência econômica permite educação sem o controle do governo. Na vida adulta é o homem que não precisa, nem pede nada ao governo a quem pode criticar e apontar o dedo para a ideologia. Leia Montaigne; é a voz de um homem sentado à sua mesa, comendo o carneiro e o nabo produzidos em sua própria terra. Ninguém fala como ele tendo o Estado como professor e empregador? Admito que, quando o homem era indomado, essa liberdade pertencia a poucos. Eu sei. Daí a terrível suspeita de que temos que escolher entre sociedades com poucos livres e sociedades sem nenhum livre.

Repito, a nova oligarquia precisa, cada vez mais, basear sua alegação de planejar para nós em sua afirmativa de conhecimento. Se é para termos mãe, a mãe deve saber o que é melhor para nós. Isso significa que precisam confiar cada vez mais nos conselhos dos cientistas, até que os políticos também se tornem meros fantoches dos cientistas. A tecnocracia é a forma para a qual a sociedade planejada deve tender. Temo os especialistas em poder porque sabem falar sobre outros assuntos que não a sua especialidade. Que os cientistas falem sobre ciências, mas o governo envolve questões sobre o bem da pessoa, a justiça, e o que vale a pena ter, a que preço. Nesses assuntos, o treinamento científico não acrescenta qualquer valor à opinião do homem. Que o médico me diga que, se eu não tomar determinadas atitudes, morrerei em certo prazo, mas decidir se vale a pena viver nesses termos não é questão que ele seja mais capaz de responder do que qualquer outra pessoa.

Em terceiro lugar, não gosto que as pretensões do governo – o fundamento para exigir minha obediência – sejam muito elevadas. Não gosto de pretensões mágicas dos médicos nem do Direito Divino do Bourbon. Isso não é apenas porque não acredito em mágica e na Politique [6] de Bousset. Creio em Deus, mas detesto a teocracia. Todo governo consiste apenas em homens e, numa visão estrita, é um paliativo. Caso acrescente aos comandos “Assim diz o Senhor”, está mentindo, e essa mentira é perigosa.

Por esse mesmo motivo, temo o governo em nome da ciência. É assim que a tirania se intromete. Em cada era, os homens que nos querem sob seu domínio usarão a pretensão específica que as esperanças e os temores de cada era mostrarem ser mais potentes. Eles “capitalizam.” Já foi magia, cristianismo. Agora, com certeza, será a ciência. Talvez os verdadeiros cientistas não levem muito a sério a “ciência” dos tiranos – não levavam a sério as teorias raciais de Hitler nem a biologia de Stalin. No entanto, eles podem ser calados.

Precisamos dar atenção ao alerta de Sir Charles – no Oriente, milhões estão morrendo de fome. Esses considerariam meus temores muito desprezíveis. O faminto pensa em comida e não em liberdade. Precisamos dar toda atenção à afirmativa de que apenas a ciência, aplicada por todo o globo, e, portanto, sem precedente de controle governamental, pode resultar em estômagos saciados e assistência médica para toda a raça humana. Nada, em suma, além de um mundo com Estado assistencialista. É a plena aceitação dessas verdades que me alerta para o perigo extremo que a humanidade corre no presente.

Temos, por um lado, necessidade desesperada: fome, doença e medo da guerra. Por outro lado, temos o conceito de algo que poderia resolver o problema: tecnocracia global e supercompetente. Não são as oportunidades ideais para a escravidão? Foi assim que aconteceu antes: uma necessidade extrema (real ou aparente) de um lado e o poder (real ou aparente) de aliviá-la do outro. No mundo antigo, os homens se vendiam como escravos para conseguir comer. O mesmo acontece na sociedade. Eis o curandeiro que pode nos livrar do feiticeiro – o guerreiro que nos salva dos bárbaros –, a Igreja que nos salva do inferno. Dê a eles o que querem, entregue-se a eles amarrado e vendado, se eles o quiserem! Talvez a barganha terrível aconteça de novo. Não podemos culpar os homens por aceitarem. Mas conseguimos desejar que não o façam. Mas também mal podemos suportar que aceitem.

A questão sobre o progresso se tornou a questão sobre a possibilidade de descobrirmos uma forma de nos submeter ao paternalismo mundial da tecnocracia sem perder toda a privacidade e independência. Há algum jeito de conseguir o mel do Estado assistencialista sem ser picado?

Não nos enganemos quanto ao ferrão. A tristeza sueca é apenas um prelúdio. Viver como acha melhor, chamar sua casa de seu castelo, desfrutar dos frutos de seu trabalho, educar os filhos como achar melhor, poupar para a prosperidade dos filhos depois de sua morte – esses são desejos profundamente entranhados no homem branco e civilizado. Realizá-los é quase tão necessário para nossas virtudes quanto para nossa felicidade. Se forem frustrados, podem ocorrer problemas psicológicos e morais.

Tudo isso nos ameaça, inclusive se a forma de sociedade para a qual a nossa aponta se mostra um sucesso sem precedentes. Mas isso é certo? Que segurança temos de que nossos mestres manterão, ou serão capazes de manter, a promessa que nos levou a nos vendermos? Não nos enganemos com frases como “Homem tomando seu destino nas mãos”. O que pode acontecer é apenas que alguns homens tomarão nas mãos o destino dos outros. Serão apenas homens, imperfeitos, alguns gananciosos, cruéis e desonestos. Quanto mais planejarmos, mais poderosos serão eles. Será que já descobrimos novas razões por que, desta vez, o poder não corromperá como antes?

NOTAS:

1. Da Revolução Francesa até o início da I Guerra Mundial, em 1914, presumia-se que o progresso humano era não apenas possível, mas também inevitável. Desde então, duas guerras terríveis e a descoberta da bomba de hidrogênio levaram os homens a questionar a pressuposição. The Observer convidou cinco escritores renomados a responderem às seguintes questões: “O homem está progredindo hoje?”, “O progresso é possível?”. Este artigo, o segundo de uma série, responde ao artigo de abertura de C. P. Snow, “Man in Society”. The Observer, 13 de julho de 1958.

2. Ensaio incluído em Possible Worlds and Other Essays, de J. B. S. Haldane (Londres, 1927). Ver também “The Last Judgement”, no mesmo livro.

3. Grupo de ex-combatentes irlandeses, organizado para acabar com revoltas em 1920 e 1921. (N.E.)

4. Polícia secreta na União Soviética nos anos 1920. (N.E.)

5. Em Rei Lear, de Shakespeare.

6. Jacques Bénigne Bossuet, Politique tirée des propres de l’Ecriture-Sainte (Paris, 1709).

Fonte: Ética Para Viver Melhor – C. S. Lewis 

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