Educação Clássica vs Educação Moderna: A Visão de C. S. Lewis – Steve Turley

Educação Clássica vs Educação Moderna

Educação Clássica vs Educação Moderna: A Visão de C. S. Lewis – Steve Turley

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CACHOEIRAS E O MUNDO
 
 
Não há dúvidas de que a década de 1940 tenha constituído um período historicamente assombroso: o ataque japonês a Pearl Harbor, a Segunda Guerra Mundial, o advento da bomba atômica, a transformação dos EUA em uma superpotência global, o estabelecimento da OTAN e a fundação da República Popular da China. No entanto, no meio destes acontecimentos notáveis, raramente, senão nunca, se encontra a inclusão de um pequeno livro, publicado em 1944, criticando o estado da educação britânica. O livro foi intitulado A Abolição do Homem, cujo autor foi uma das grandes mentes literárias do século 20, o renomado erudito de Oxford e de Cambridge, C. S. Lewis. No que talvez seja a análise da era moderna mais significativa e importante do século 20, Lewis, em menos de 100 páginas, descreve aquilo que o professor Peter Kreeft chama de uma terrível profecia de mortalidade, não apenas a mortalidade da civilização ocidental moderna, mas a mortalidade da própria natureza humana.
 
A crítica de Lewis começou a partir de um compêndio, cujo título ele não nomeia, chamando-o apenas de O Livro Verde [The Green Book], escrito por dois autores cujos nomes ele também não menciona, referindo-se a eles como Gaius e Titius. Os autores deste livro contam a famosa visita às Cachoeiras do Clyde, na Escócia, realizada pelo poeta Samuel Taylor Coleridge, no início dos anos 1800. Em dado momento, diante de uma das cachoeiras, Coleridge ouviu a reação de dois turistas: um observou que a cachoeira era “sublime”, enquanto o outro disse que ela era “agradável”. Coleridge endossou mentalmente a primeira opinião e rejeitou a segunda com desgosto. Então, Gaius e Titius fazem seu próprio comentário sobre esta cena:
 
Quando o homem disse Isso é sublime, ele parecia estar fazendo uma observação sobre a cachoeira… Na verdade… ele não estava fazendo uma observação sobre a cachoeira, mas uma observação sobre seus próprios sentimentos. O que ele na verdade estava dizendo era Eu tenho em minha mente sentimentos associados à palavra ‘Sublime’, ou, em poucas palavras, Eu tenho sentimentos sublimes… Essa confusão está continuamente presente na língua conforme a usamos. Parece que estamos dizendo algo muito importante acerca de algo: enquanto, na realidade, só estamos dizendo algo a respeito de nossos próprios sentimentos.
 
Para Lewis, este comentário de Gaius e Titius teve nada menos que consequências cósmicas. A cena da cachoeira e o comentário capturaram de forma microcósmica duas concepções de mundo contrastantes: uma, representada por Samuel Taylor Coleridge, que afirmou ser a beleza um valor objetivo incorporado em uma ordem cósmica criada, e beleza esta reconhecida por uma humanidade que participa dessa ordem cósmica; e outra, representada por Gaius e Titius e O Livro Verde, que negou à natureza impessoal o valor objetivo e colocou todas as concepções de beleza e sublimidade na mente humana e em preferências pessoais. Em uma, a beleza é um valor que, autônomo, existe independente do conhecedor; para a outra,  a beleza é um valor construído pelo conhecedor e sobreposto em um mundo impessoal. Para Lewis, ambas as perspectivas representam nada menos que dois projetos humanos fundamentalmente diferentes, que podem ser considerados como sendo duas eras ou civilizações fundamentalmente distintas, ao que poderíamos chamar de a era moral versus a era moderna, a era sapiente versus a era científica.
 
Lewis resume essas duas eras da seguinte forma: para o homem clássico, a pergunta fundamental era: “Como posso conformar minha alma com o mundo que me rodeia  de modo a ser elevado à vida divina?”. A resposta era: por meio da oração, da virtude e do conhecimento. No entanto, para o homem moderno, a pergunta é invertida: o homem moderno não está interessado em como adaptar sua alma à realidade. Em vez disso, o homem moderno pergunta: “Como posso conformar o mundo com meus próprios desejos e ambições?”. A resposta envolve o explorar as instituições que operam pelos mecanismos de poder e manipulação, a saber, a ciência, a tecnologia e o estado.
 
Agora, o que Lewis nota com O Livro Verde é que essas duas visões da realidade que se contrastam implicam duas visões da educação que se contrastam. É possível que uma das observações mais profundas feita por Lewis seja que a educação é, inescapavelmente, enculturação; a educação é um meio pelo qual o indivíduo é iniciado em uma cultura, numa forma particular de ser humano. Para Lewis, a importância do Livro Verde enquanto compêndio estava no fato de que este livro manifestou a chegada triunfante da era moderna e seus pressupostos, os quais permeiam a cultura britânica de tal modo que agora todas as instituições culturais, especialmente as escolas, são reconstituídas de acordo com regras, compreensões e metas seculares.
 
Lewis, porém, não é um mero crítico desta mudança civilizacional. Ele não é um cínico grosseiro que simplesmente lamenta a morte da velha ordem e a ascensão de uma nova ordem. Não, Lewis acredita que essa propensão, que essa orientação em direção ao poder e à manipulação inerentes ao experimento modernista é nada menos que uma ameaça à nossa humanidade como a conhecemos.
 
Peter Kreeft, professor de Filosofia do Boston College e do The King’s College, resume bem a preocupação de Lewis:
 
[A Abolição do Homem] é profética; a obra é tecida em linguagem acadêmica — com efeito, sua pletora de referências versadas no latim assustam e afugentam universitários ainda hoje, pois esta é a primeira geração na história americana que é menos instruída que a geração de seus pais —, mas seu conteúdo é uma profecia aterradora de mortalidade, não apenas a mortalidade da civilização ocidental moderna, mas a mortalidade da própria natureza humana, se não recuperarmos a crença no [que Lewis chama de] Tao, a lei natural, a doutrina dos valores objetivos.

 

EDUCAÇÃO CLÁSSICA E CULTURA
 
 
A fim de entender de onde Lewis parte, temos de entender a cultura e a educação da forma como foram compreendidas no mundo ocidental por quase 2 200 anos, de Platão até meados do século 19. A educação, no sentido clássico do termo, estava inextricavelmente ligada ao que os gregos chamavam de paideia. Usamos um termo semelhante quando levamos nossos filhos ao pediatra. No mundo greco-romano, o termo paideia carregava significado duplo. Originalmente, paideia fazia referência ao projeto educacional dos gregos que iniciaria o aluno em uma cultura, em uma maneira particular de tornar-se humano, mas acabou se tornando sinônimo do próprio conteúdo dessa cultura, sendo assim o equivalente grego da palavra latina cultura. Então, a paideia é tanto o conteúdo da cultura quanto o processo educacional pelo qual o indivíduo é iniciado em uma cultura; em suma, o “cultivo da cultura”.
 
Agora, tal conceito de educação tornou-se muito importante para a civilização cristã emergente. Isto se dá por causa de um texto-chave em Efésios 6.4, onde Paulo exorta os pais a criarem seus filhos na paideia tou kyriou, a “paideia do Senhor”. Paulo introduz essa ideia de paideia, mas não uma paideia dos gregos ou dos romanos; esta é a paideia do Senhor. Esta é uma paideia que não é deste mundo, trazendo, portanto, uma cultura literalmente de outro mundo, o próprio mundo do céu. E assim temos cristãos desenvolvendo a concepção greco-romana de paideia de maneiras surpreendentemente novas e sem precedentes.
 
Obviamente, no entanto, o ponto em questão levanta a seguinte pergunta: o que é cultura? Aqui, devemos entender a relação clássica entre paideia e polis, ou a cidade-estado grega. O objetivo principal da cidade-estado era o de preencher a lacuna entre a pessoa humana individual e o mundo macrocósmico maior. Temos de entender que, no mundo clássico, havia uma relação micro-macro entre a pessoa humana e o mundo cósmico maior. Empédocles, no século V a.C., não foi apenas o primeiro a sistematizar os quatro elementos do cosmo, mas também os quatro humores do corpo humano (a bílis amarela, a bílis negra, a fleuma e o sangue) que correspondiam-se em relacionamentos análogos aos quatro elementos cósmicos. A pessoa humana era, portanto, uma réplica microcósmica do mundo macrocósmico mais amplo, repleto de sentido e propósito divinos.
 
Esta relação micro-macro significava que cada pessoa nascida no mundo nasceu em um mundo de imposição divina, de modo que todas as pessoas são obrigadas a orientar suas vidas de forma a cumprirem o propósito divino para a humanidade. Isto é o que os intelectuais clássicos têm chamado de “piedade cósmica”, a qual era praticamente universal no mundo greco-romano. Para o grego, havia um senso profundo de que alguém seria verdadeiramente humano unicamente porque estava numa relação harmoniosa com o cosmo.
 
É, por conseguinte, neste contexto que precisamos compreender a cultura: a cultura ou paideia da cidade-estado representava a reconstituição do tempo e do espaço em torno dessa obrigação divina e, portanto, permitia que cumprissemos nosso propósito divino e, por esse meio, que nos tornassemos verdadeiramente humanos. Então, uma vez lidando com história, arte, literatura, matemática, economia, música, ciência, etc., todos esses constituintes são expressões materiais tangíveis desse significado e propósito divinos que incorporamos e, assim, com os quais orientamos nossas vidas de acordo com a virtude cósmica.
 
Agora, quando se tratava da educação, tal concepção de cultura enquanto expressão materializada da piedade cósmica era precisamente aquele mundo no qual um aluno era iniciado. O objetivo era alcançar uma harmonia entre os três aspectos da alma — o intelectual, o moral e o emocional —, a qual podia ser demonstrada em uma vida ética de virtude cívica, o cidadão ideal da polis; como Lewis diz, o objetivo era produzir “homens com peito”. Isto é o que o termo “virtude” significa: vir é o termo em latim para “homem”.
 
Logo, resumindo: a educação clássica era o projeto pelo qual o aluno era iniciado em uma cultura que materializava ou fundamentava uma piedade cósmica que permitia ao aluno cumprir seu propósito divino e, assim, tornar-se verdadeiramente humano. E esta visão de educação permaneceu normativa por 2 200 anos, começando com Platão, florescendo sob os romanos e depois na cristandade, até meados do século 19.

 

A REVOLUÇÃO MODERNA
 
 
Agora, para Lewis, essa concepção clássica da educação e seus vários referenciais foram eclipsados pela ascensão da era moderna.
 
Com a ruptura da cristandade no século 17, tornava-se cada vez mais plausível considerar o conhecimento como algo limitado apenas ao que se pode verificar por um método, a saber, a aplicação da ciência e da razão. Argumentava-se que somente as coisas verificáveis pelo método empírico poderiam ser conhecidas de uma maneira completamente à parte dos preconceitos do observador. Tudo o que não fosse submetido a esse método ou fracassasse sob sua aplicação era reduzido ao estado de relatividade pessoal e excluído da arena do que pode ser conhecido. O conhecimento, nestas condições, agora estava aberto ao homem: tudo o que ele tinha de fazer, em qualquer área da vida, era aplicar o método.
 
Mas havia um preço a ser pago por essa promessa. Uma das primeiras vítimas dessa nova visão do conhecimento foi a piedade cósmica: porque o significado e o propósito divinos são impérvios ao método científico, eles não podem ser conhecidos, tornando-se cada vez mais plausível enxergar o mundo como um composto de processos de causa e efeito que não têm qualquer significado senão aquele que as pessoas escolheram lhe dar.
 
Por consequência dessa nova visão do conhecimento, você tem uma definição de religião completamente nova: a religião não mais é uma expressão civilizadora da piedade cósmica; em vez disso, a religião é simplesmente algo em que você acredita pessoalmente mas não pode conhecer. A religião lhe dá um significado pessoal, mas é destituída de todo valor comum ou objetivo. E se a religião não pode ser conhecida, logo ela nunca deixa a esfera da dúvida e, por conseguinte, a dúvida torna-se a orientação apropriada às afirmações da igreja.
 
Com o surgimento do método científico como única fonte de conhecimento, a igreja é completamente varrida do cenário público para a periferia da sociedade, confinada unicamente à vida privada das pessoas. E isso significa que cada pessoa nascida neste mundo é nascida em um mundo desprovido de qualquer obrigação divina senão aquilo que você escolhe impor a si mesmo. Portanto, não é por acaso que foi nos séculos 19 e 20 que os cristãos começaram a enfatizar uma relação pessoal com Jesus, um relacionamento independente da igreja. Embora faltassem referenciais ao cristianismo clássico para bifurcar da cultura a alma de um indivíduo, já no início do século 20 a distinção público/privado imposta ao cristianismo por processos secularizados estava firmemente implantada.
 
E com a marginalização da igreja, toda a nossa concepção de cultura mudou. O termo cultura é hoje usado mais em um sentido científico-social, o que pode ser muito enganador; isto acontece porque a pressuposição fundamental deste sentido científico-social é a de que não existe um significado, ou propósito, inerente que seja objetivamente discernível neste mundo, o que, portanto, torna o significado específico à raça humana. Os seres humanos, por sua natureza, imputam significado a um mundo que por si mesmo não possui significado. E este é o papel da cultura: a cultura é composta de símbolos, práticas e arranjos comuns, através dos quais uma população distinta que os compartilha impõe significado a um mundo sem significado. É por isso que jamais podemos dizer que uma cultura é mais válida que outra, uma vez que todas as culturas são arbitrárias por natureza; elas fabricam sistemas de significado artificiais quanto à natureza impessoal. Por consequência, chegamos ao multiculturalismo, a noção de que todas as culturas são igualmente válidas, ou seja, outra forma de dizer que são igualmente artificiais.
 
Talvez agora possamos entender por que Lewis está tão preocupado com O Livro Verde. Sendo a educação sempre enculturação, O Livro Verde representa nada menos que a tentativa de enculturar estudantes com a visão de mundo moderna. A educação moderna deve, por definição, perpetuar e enculturar uma dicotomia entre a ciência e a religião, o fato e a fé, o conhecimento e a crença; deve, por definição, afastar os alunos da visão clássica de piedade cósmica e impedi-los de encontrar os valores transcendentes e eternos do que é Verdadeiro, Bom e Belo. Na verdade, de acordo com Gaius e Titius e O Livro Verde, o Verdadeiro, o Bom e o Belo são agora o que você quiser. Todos nós somos hoje nascidos em um mundo onde não temos obrigações divinas, independentemente daquilo que pessoalmente escolhemos impor a nós mesmos.
 
Lewis no entanto observa que, se impedidos de encontrar o transcendente, os alunos terão sido afastados da própria fonte de virtude cívica; nós teremos os afastado dos valores cósmicos mediante os quais eles poderiam desenvolver uma alma equilibrada e, assim, tornar-se verdadeiramente humanos. Por exemplo, Santo Agostinho argumenta que a virtude implica o ordenar adequadamente nossos amores, ou o que ele chamou de ordo amoris. É bom amar um bebê e é bom amar um sanduíche de presunto; mas se o sanduíche de presunto e o bebê estivessem caindo em um precipício e eu me apressasse para salvar o sanduíche de presunto, algo estaria errado com meus amores. A ordenação dos amores foi expulsa da economia das coisas boas criadas por Deus.
 
E o perigo aqui, reconhecido pela civilização clássica, é o de que sem conformar-se aos valores cósmicos da Verdade, da Bondade e da Beleza, a alma humana entra ou no colapso de um racionalismo antiético ou de um sensualismo irracional. Assim, temos professores universitários como Peter Singer em Princeton defendendo o infanticídio (o que ele chama de aborto pós-nascimento) até a idade de dois anos, enquanto também temos hoje a radical pornificação da cultura pop. Isso tudo é totalmente previsível: em uma era moderna que nos afasta do transcendente, nossa intelligentsia será radicalmente antiética e nossos ícones da cultura pop serão radicalmente sensuais.
 
Ainda assim, como Lewis observa, 2 200 anos de precedentes culturais e educacionais não desaparecem da noite para o dia, mas de alguma maneira persistem em nossas consciências e em nossas expectativas. Desta forma, Lewis observa a estranha ironia de que, na era moderna, ainda esperamos que essas virtudes estejam presentes em nossa sociedade. Ainda esperamos honestidade, coragem, um compromisso com o bem comum e o desenvolvimento humano. Como conseguimos agir em tamanho contraste? Como podemos ensinar a nossos alunos que a verdade é relativa e ainda esperar que nossos políticos sejam honestos? Como podemos afirmar que a moralidade foi substituída pela ética situacional e ainda esperar que os executivos de Wall Street tomem suas decisões de negócios baseadas em qualquer outra coisa senão lucro, ganância e conveniência? Como podemos pensar que a beleza está apenas nos olhos de quem vê e depois reclamar do quão ofensiva é a arte financiada com recursos públicos? Como podemos afirmar que a família clássica é apenas uma construção cultural ocidental arbitrária e ainda assim repovoar o planeta? Como podemos destruir a concepção medieval de solidão e contemplação nas repúblicas universitárias e depois tentar impedir que elas se transformem em bordéis que acolhem estudantes, alguns dos quais serão nossos futuros médicos e bioeticistas? E como podemos considerar o cristianismo apenas uma das inúmeras alternativas de autoajuda no estilo programa de auditório com fins de autorrealização e significado pessoal, mas ainda assim valorizarmos a sacralidade da vida humana?
 
Lewis utiliza as seguintes palavras:
 
E o tempo todo — tal é nossa situação tragicômica — continuamos a clamar por aquelas qualidades que nós mesmos impossibilitamos de existirem. Você dificilmente abrirá um jornal sem encontrar a afirmação de que nossa civilização precisa mais é de “impulso”, ou dinamismo, ou abnegação, ou “criatividade”. Numa espécie de ingenuidade horrenda, removemos o órgão e exigimos dele sua função. Nós criamos homens sem peito e esperamos deles virtude e ímpeto. Nós ridicularizamos a honra e ficamos chocados quando encontramos traidores em nosso meio. Nós castramos e exigimos dos castrados que sejam fecundos.

 

A ABOLIÇÃO DO HOMEM
 
 
Agora, quais são as consequências disso? O que acontecerá se não mudarmos o rumo? O que acontecerá se a educação continuar neutra em termos de valor, por assim dizer, impedindo os alunos de um encontro com o transcendente?
 
Lewis reconhece que se todos os valores forem relegados ao aspecto pessoal-relativo, se todas as concepções de Verdade, Bondade e Beleza desmoronarem para meras preferências subjetivas e pessoais, então a única maneira de haver um consenso moral na sociedade será por meio da coerção. Se um sentimento de obrigação divina e, portanto, de autogoverno foi apagado, então apenas a coerção, compulsão e extorsão podem constituir uma motivação para a conformidade ética.
 
Isso não é muito difícil de imaginarmos. Tenho certeza de que a maioria de vocês já leu os livros ou assistiu aos filmes baseados na trilogia Senhor dos Anéis, escritos pelo colega de Lewis, J. R. R. Tolkien. Há uma cena maravilhosa no filme As Duas Torres, quando Frodo, que está viajando pela Terra Média para eliminar um anel maligno no fogo de Mordor enquanto enfrenta inúmeras adversidades mortais ao longo do caminho, olha para o companheiro Samwise Gamgee e simplesmente começa a se desesperar, dizendo: “Eu não consigo fazer isso, Sam”. Sam responde:
 
Eu sei. Está tudo errado. Por direito não deveríamos nem mesmo estar aqui. Mas estamos. É como nas grandes histórias, Sr. Frodo. Aquelas que realmente importaram. Cheias de escuridão e perigo elas eram. E às vezes você não queria saber o fim. Afinal, como o fim poderia ser feliz? Como o mundo poderia voltar ao modo como era, havendo passado tantas coisas ruins? Mas no fim, é apenas uma coisa passageira, essa sombra. Mesmo a escuridão deve passar. Um novo dia há de raiar. E quando o sol brilhar, ele resplandecerá com maior luz. Essas foram as histórias que permaneceram com você. Elas significavam algo, mesmo que você fosse muito pequeno para entender o porquê. Mas eu acho, Sr. Frodo, acho que eu realmente entendo. Agora eu sei. Nessas histórias, as pessoas tiveram muitas chances de voltar atrás, só que não o fizeram. Elas continuaram. Porque eles estavam se agarrando em algo.
 
“No que estamos nos agarrando Sam?”, pergunta Frodo. “Na existência de algum bem neste mundo, Sr. Frodo”, Sam responde com determinação, “e por ele vale a pena lutar”.
 
Agora, você consegue imaginar como a resposta de Sam Gamgee seria diferente, se ele tivesse sido educado com O Livro Verde? Como você teria feito com que Frodo e Sam fizessem o sacrifício de viajar pela Terra Média à custa da própria vida e dos membros de seus corpos, sacrificando tudo em nome do Condado, que nem mesmo sabia o que estava acontecendo? Bem, uma maneira seria sequestrar suas famílias e mantê-las reféns: “Você faz isso ou então…”. A isso é dado o nome de consequencialismo.
 
Outra maneira seria oferecer-lhes uma grande recompensa. De qualquer forma, um mundo educado pelo Livro Verde não pode dizer: “Você deve fazer isso porque é bom!”. Aqueles que são enculturados por meio do Livro Verde dirão: “Não há nada objetivo sobre o bem; é apenas uma questão de opinião!” ou “a bondade está meramente nos olhos de quem a contempla!”. E se a moral e a ética forem extintas do domínio do conhecimento, então teremos perdido todo referencial objetivo pelo qual concordar sobre o que é certo e o que é errado. E se não existir uma base objetiva para a conformidade ética, a única possibilidade de haver qualquer tipo de conformidade ética em massa é por meio de alguma instituição que tenha o poder de compelir tal conformidade. Assim, Lewis vê manipulação no coração deste admirável mundo novo no qual estamos embarcando.
 
Essa propensão à manipulação faz parte do projeto maior da modernidade, o qual apresenta um novo summum bonum, um novo bem maior, que é a conquista da natureza pelo homem. Você terá em mente a observação de Lewis feita mais acima: o homem clássico estava interessado em conformar os desejos e as necessidades da pessoa humana com o mundo ao seu redor, ao passo que o homem moderno está interessado em conformar o mundo com os desejos e necessidades da pessoa humana. Realmente é tudo sobre você, como a propaganda declara confiantemente. Se não houver um significado ou propósito divinos na natureza, se forem meros processos de causa e efeito sem significado ou propósito inerentes além daquilo que desejamos e escolhemos conferir-lhe, então a natureza existe simplesmente para ser usada de acordo com nossos propósitos.
 
Agora, se a manipulação é uma característica intrínseca da vida moderna, logo, observa Lewis, você deve, por definição, ter duas classes de pessoas: manipuladores e manipulados, ou, nos termos de Lewis, os “condicionadores” e os “condicionados”. A necessidade de coerção e manipulação dá origem à formação de uma elite social, uma aristocracia secular.
 
Sendo assim, por que as massas concordariam com este novo arranjo social? Por que, aliás, elas se submeteriam ao governo de uma classe elitista de manipuladores? Simplificando, é porque as massas foram condicionadas a acreditar que a vida e a felicidade serão encontradas quando conformarmos o mundo aos nossos próprios desejos e ambições. Mas essa promessa exige de nós uma dependência confiante numa classe de elites que tenham a experiência necessária para conformar o mundo. As elites prometem vida sem limite, saúde perpétua, integridade e bem-estar psicológicos, proteção de direitos de grupos e corpos, oportunidades educacionais e de carreira ilimitadas e prosperidade para todos. A genialidade desta nova divisão moderna do trabalho está no sucesso que esta teve em escravizar as massas, convencendo-as de que o quanto são dependentes dos engenheiros sociais é o quanto são livres. O experimento moderno convenceu com sucesso as populações em massa de que o controle da natureza é o novo summum bonum, e de que quanto mais confiarmos nos engenheiros sociais para fornecerem esse controle sobre a natureza, mais livres seremos.
 
Por exemplo, não é mera coincidência que o nome do cartão que o estado de Maryland emite para fornecer acesso à comida grátis e assistência financeira é o “Cartão de Independência”. Nossa liberdade depende do quanto dependemos dos engenheiros sociais compostos de elites científicas, tecnológicas e estatistas.
 
E aqui está a conclusão arrepiante de Lewis: se a natureza é, por definição, aquilo a ser conquistado e controlado, aquilo que deve ser conformado às minhas necessidades, aos meus desejos e ambições, e se essa visão da natureza envolve um controle e manipulação de pessoas como única forma de produzir conformidade moral, então este projeto de conquista do homem sobre a natureza significa que a grande maioria da população humana deve ser consignada à categoria da natureza. Estamos sendo manipulados junto ao mundo natural! Assim, a conquista da natureza pelo homem inclui a conquista do homem pelo próprio homem ou, melhor, o uso da natureza pelo poder de alguns sobre outros. Nosso esforço por conquistar a natureza fez com que a natureza risse por último. A natureza é que nos conquistou.
 
Lewis dá o exemplo óbvio dos métodos anticoncepcionais, em que aqueles que controlam a natureza efetivamente controlam outros humanos. Esta é precisamente a força motriz do aborto e o porquê de hoje haver uma classe de elites que considera o aborto como mais sagrado que a Segunda Emenda: o aborto, ao contrário da Segunda Emenda, controla a natureza e, portanto, incorpora o bem maior. Isto é o que está por trás da manipulação e da redistribuição de riquezas por parte dos engenheiros sociais. A grande maioria da população é “natureza” e deve ser controlada e manipulada de acordo com os objetivos e desejos dos manipuladores.
 
Lewis escreve:
 
Temos tentado, assim como [o Rei] Lear, conciliar dois opostos: abandonar nossa prerrogativa humana e, no entanto, ao mesmo tempo mantê-la. Isso é impossível. Ou somos espíritos racionais obrigados a obedecer para sempre aos valores absolutos do Tao [o termo de Lewis para a doutrina dos valores objetivos], ou então não somos mais que mera natureza a ser manuseada e esculpida em novas formas para o prazer dos mestres, que devem, por hipótese, não ter motivos senão seus próprios impulsos “naturais”. Somente o Tao provê uma lei de ação humana comum capaz de dominar tanto os governantes quanto os governados. Uma crença dogmática no valor objetivo é necessária para a própria ideia de uma regra que não seja tirânica ou de uma obediência que não seja escravizante.
 
Assim, ao tentar conformar o mundo em torno do eu, acabamos nos encarcerando. A cultura moderna torna-se uma espécie de prisão que nos enjaula, nos absorve e nos distrai, distanciando-nos daqueles valores transcendentes que trazem equilíbrio para a alma e despertam a liberdade inerente à virtude cívica e moral. Lewis, por conseguinte, conclui que a educação moderna, na medida em que perpetua essa dicotomia de religião versus ciência, encultura os estudantes num mundo constituído por condicionadores e condicionados, uma nova ordem social que submete a grande maioria da humanidade à categoria de natureza impessoal, o que com efeito redefine a humanidade para uma humanidade intrinsecamente sem sentido; daí o título de seu livro, A Abolição do Homem.

FONTE: Para ter Acesso ao Texto Completo adquira o e-book. Educação Clássica vs Educação Moderna: A Visão de C. S. Lewis – Steve Turley 

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