Dez Livros Conservadores – Russell Kirk

Dez Livros Conservadores – Russel Kirk

Dez Livros Conservadores – Russell Kirk

A atitude política e moral chamada de conservadorismo não vem de um livro; de fato, algumas das pessoas mais conservadoras que conheci eram distintamente avessas a livros. As fontes da ordem conservadora não são escritos teóricos, mas, em vez disso, o costume, a convenção e a continuidade. Edmund Burke (1729-1797) não conseguia imaginar nada mais perverso do que a alma de um “metafísico abstrato” em política — isso é, um tolo ou um velhaco erudito que imagina poder varrer as complexas instituições de uma sociedade civilizada, penosamente desenvolvidas ao longo de séculos de experiência histórica, para pôr-lhes no lugar algum projeto livresco de um paraíso terrestre de própria autoria. Portanto, não existe um equivalente conservador do Das Kapital [O Capital], de Karl Marx (1818-1883); e, se Deus quiser, nunca existirá.

Dito de outra forma, o conservadorismo não é um conjunto de teorias acumulado por algum filósofo recluso. Pelo contrário, a convicção conservadora nasce da experiência: a experiência da espécie, da nação, da pessoa. Como já notei algumas vezes nessas conversas, o verdadeiro conservadorismo é a negação da ideologia. Todo conservador bem-informado entende que as instituições sociais do século XX — o Common Law sendo um bom exemplo delas — desenvolveram-se lentamente em meio a negociações, consensos e no teste da natureza prática. As instituições não apareceram totalmente crescidas, a partir de um livro escrito por alguém; e é o estadista prudente, não o visionário recluso, quem sempre preservou uma tensão saudável entre as exigências da autoridade e as da liberdade; quem moldou uma constituição política tolerável. A Constituição dos Estados Unidos, com dois séculos de existência, é exemplo suficiente da origem das instituições conservadoras a partir da experiência de um povo, e não de tratados abstratos. Os delegados de melhor formação acadêmica que participaram da Convenção Constitucional da Filadélfia, em 1787, entre os quais Alexander Hamilton (1755-1804) e James Madison (1751-1836), fizeram referência vez ou outra à Ética a Nicômaco e à Política de Aristóteles (384-322 a.C.) ou ao L’Esprit des Lois [O Espírito das Leis] de Montesquieu (1689-1755), de modo a reforçar algum argumento; entretanto, a própria sabedoria política, bem como a Constituição que desenharam, tinha raízes na experiência pessoal direta das instituições sociais e políticas que se haviam desenvolvido nas Treze Colônias desde meados do século XVII, e em um conhecimento profundo do desenvolvimento britânico ao longo de sete séculos, do governo parlamentar, da liberdade ordenada e do império da lei. Não reconheciam nenhum escrito onisciente como oráculo político; e apesar da crença de vários professores norte-americanos de que os Pais da Pátria autores da Constituição tenham sido devotos entusiastas de John Locke (1632-1704), somente um orador da Convenção chegou a mencionar o Segundo Tratado sobre o Governo Civil.

Tenho observado que a mentalidade conservadora confia nos costumes, na convenção e na continuidade para alcançar uma compreensão da ordem social civil – e não em construções artificiais, como o fictício Contrato Social. Definamos os nossos termos, tendo por referencia os principais dicionários.

Costumes são usos ou práticas comuns, seja de um indivíduo ou de uma comunidade, mas especialmente desta; repetição habitual do mesmo ato ou procedimento; modos ou comportamentos estabelecidos. No Direito, costumes significam os mores da comunidade tais como são e foram por um tempo incerto, e nela reconhecidos como os padrões do justo e do correto; uso antigo e geral com força de lei.

Convenção é o congregar; é uma coalizão; união. Esse termo também significa acordo geral, compreensão tácita, consentimento comum, ou o fundamento de um costume ou de uma instituição. A convenção encerra uma regra, uma regulamentação ou uma necessidade consuetudinária, ou o conjunto de tais regras; por vezes estabelecidos de forma mais ou menos arbitrária, ou exigidos pela opinião ou pelo consentimento comuns; uma formalidade; um precedente.

Continuidade significa a conexão ininterrupta das partes no tempo ou no espaço; o caráter do que é ininterrupto; em uma cultura ou em um sistema político, a continuidade encerra uma ligação ou uma série de ligações nunca rompidas, que unem geração a geração: conforme expresso pela liturgia da Igreja Oriental, unindo “eras a eras”.

Livros podem trazer comentários sobre os costumes, a convenção e a continuidade; mas não podem criar tais essências sociais e culturais. A sociedade produz os livros; livros não produzem a sociedade. Enfatizo esse ponto porque vivemos em uma era de ideologias, e um bom número de pessoas — especialmente professores e estudantes de pós-graduação — acreditam na noção curiosa de que todas as instituições e toda a sabedoria são, de algum modo, extraídas de certos livros (em religião, isso é o que Coleridge chamou de bibliolatria). A Bíblia é na realidade um registro de experiências espirituais, não a fonte das experiências espirituais. De tempos em tempos, algum aluno vem perguntar-me, após uma palestra, “Puxa, professor, onde o senhor pegou essa informação toda? Eu não consegui achá-la no Livro” — quer dizer, o Livro-Texto Sagrado, em geral um trabalho túrgido e superficial, escrito por um professor medíocre, cuja motivação foi a cobiça financeira. A sabedoria da espécie não está contida em nenhuma estante de livros de dois metros de altura.

Portanto, senhoras e senhores, caso estejais procurando por algum “Manual Infalível do Conservadorismo Puro” — ora, estais perdendo o vosso tempo. O conservadorismo, não sendo uma ideologia, não tem nenhum gabarito presunçoso, estimada criação de algum terrível simplificador, ao qual o cândido devoto da salvação política possa recorrer toda vez que tiver alguma dúvida. Não caiais em bibliolatria política; em particular, não considereis as “Obras de Kirk” como se tivessem sido escritas por um ser dotado de divina inspiração profética. Naqueles dias queridos de outrora, já quase esquecidos, em que tive uma livraria, numa tarde, um homem pequeno e taciturno passava os olhos descompromissadamente pelas minhas mesas e estantes, e logo me disse, quase com raiva, “estou procurando um livro que nos diga o que fazer para resolver todos esses problemas modernos; mas tem que ser um livro pequeno e sem nada sobre religião”. Ai de mim! Nenhum livro pequeno, ou mesmo grande, foi escrito para nos dizer de maneira honesta e prática o que fazer com todos esses problemas modernos; jamais será publicado, nem mesmo se o autor for um conservador. Caso estejais buscando um bom livro de molde conservador que não tenha nada sobre religião, ora, isso é o mesmo que procurar a pedra filosofal; ou inquirir, juntamente com o imperador romano Tibério (42 a.C.-37 A.D.), que músicas cantavam as sereias.

Dessa forma, amigos, ao recomendar-vos dez livros conservadores importantes, ofereço-vos apenas uma amostra da literatura do conservadorismo – não um corpo de escritos infalíveis sobre os quais um zelota possa fundamentar uns “Trinta e Nove Artigos” conservadores ou um “Ato de Prova”. Os conservadores compartilham de um estado de espírito ou de um conjunto de sentimentos; não necessariamente concordam acerca de assuntos prudenciais; a variedade de enfoques conservadores sobre questões políticas e morais é considerável. Não defendo que estes dez livros, os quais mencionarei a seguir, sejam os escritos conservadores mais importantes: apenas que são razoavelmente representativos do pensamento conservador. Realmente, os conservadores pensam, embora um estudioso conservador, F. J. C. Hearnshaw (1869-1946), note que, de ordinário, bastaria aos conservadores “sentar e pensar, ou talvez apenas sentar”. Não sendo um ideólogo, o pensador conservador não cai no erro de pensar que o orgulho, a paixão e as precognições da humanidade sejam passíveis de controle e direção satisfatórios por qualquer conjunto de ideias abstratas. Para citar o título de um livro de autoria de meu amigo de longa data, Richard M. Weaver (1910-1963), Ideas Have Consequences [As Ideias Têm Consequências] — que detestava esse título, dado pelo editor –, é verdade que as ideias têm consequências; mas, na política, ideias abstratas frequentemente têm más consequências; e o conservador sabe que os costumes, a convenção e a continuidade são forças socialmente mais benéficas do que as invectivas de qualquer fanático político obscuro. A escrita conservadora, portanto, em geral é iniciada com alguma relutância, e mormente em reação a tratados radicais ou esquerdistas que fingem apontar o caminho a uma “Sião terrena”. Foi assim com Edmund Burke, dois séculos atrás, e é assim hoje com Aleksandr Solzhenitsyn (1918-2008).

Da minha lista foram eliminados alguns grandes estadistas, porque o que escreveram exerceu pouca influência duradoura, apesar de suas realizações terem tido consequências grandiosas e prolongadas. Também deixei de fora os grandes romancistas conservadores, entre os quais Walter Scott (1771-1832), Benjamin Disraeli (1804-1881), Nathaniel Hawthorne (1804-1864), Robert Louis Stevenson (1850-1894), Rudyard Kipling (1865-1936) e Joseph Conrad (1857-1924), porque não escreveram especificamente a respeito de questões políticas conservadoras, embora a influência indireta deles sobre a opinião pública possa ter sido vasta. Em suma, limito-me neste momento a livros que são direta e inquestionavelmente políticos na temática e conservadores no tom.

Em 1955, em um discurso à União Conservadora de Londres, T. S. Eliot (1888-1965) nomeou a Henry St. John (1678-1751), o 1° Visconde Bolingbroke, Edmund Burke, Samuel Taylor Coleridge e Benjamin Disraeli como os principais homens de letras conservadores; e de escritores norte-americanos vivos ou recentes – e, citando uma carta minha a ele – Eliot mencionou Irving Babbitt (1865-1933), Paul Elmer More (1864-1937), Bernard Iddings Bell (1886-1958) e Robert A. Nisbet (1913-1996). Visto que, entre Bolingbroke, Coleridge e Disraeli, nenhum escreveu um manual de política em um volume que possa ser rapidamente apreendido pelo leitor moderno, sou obrigado a desconsiderá-los na nossa discussão. Não obstante, direi alguma coisa sobre Burke, Babbitt, Eliot e Nisbet.

Algumas pessoas poderão querer iniciar um estudo sério do pensamento conservador pela leitura de um manual, sucinto, mas razoável, sobre o tema. Nessa hipótese, recomendo, em especial, um volume agradavelmente breve de autoria de Robert A. Nisbet, intitulado Conservatism: Dream and Reality [Conservadorismo: Sonho e Realidade], encontrando-me de acordo com tudo naquele livro, exceto com a tentativa do dr. Nisbet de classificar o conservadorismo como uma ideologia e dos elogios que ele faz à obra de Kirk. Dois curtos volumes publicados anteriormente sobre esse tema, os dois com o mesmo título, The Case for Conservatism [A Defesa do Conservadorismo], foram escritos por Francis Graham Wilson (1901-1976) e por Quintin Hogg (1907-2001); e o livro de Wilson voltou às livrarias. Caso queirais uma antologia de ensaios, discursos, poemas e contos conservadores, The Portable Conservative Reader [O Guia de Bolso de Textos Conservadores], organizado por este vosso servo, está perfeitamente disponível; se o que buscais é uma análise histórica do pensamento conservador, a sétima (e presumivelmente última) edição do livro, também de autoria deste vosso servo, The Conservative Mind [A Mentalidade Conservadora], poderá preencher as vossas horas de lazer por algumas semanas. Agora, a lista dos dez livros, para os quais chamarei a vossa atenção em particular, à medida que estejam inseridos na corrente principal do pensamento conservador; descrevo-os em ordem mais ou menos cronológica.

Burke é o ponto de partida, pois a palavra “conservador” não fazia parte do vocabulário da política, até os admiradores franceses daquele estadista irlandês adaptarem a palavra para descrever os princípios dos homens que desejavam acrescentar, ao que havia de melhor na antiga ordem europeia, aquelas melhorias saudáveis e necessárias que poderiam preservar a continuidade da civilização. Sem os discursos e panfletos de Burke e, especialmente, sem o eloquente Reflections on the Revolution in France [Reflexões sobre a Revolução na França], pessoas de inclinações conservadoras ficariam intelectualmente empobrecidas. Conforme escreveu Harold Laski (1893-1950) certa vez, “Burke tem-se mantido como o manual permanente sem o qual os estadistas são como marinheiros em um mar desconhecido”. Tendo previsto as revoluções do nosso tempo, Burke expôs os princípios da ordem social que os conservadores têm, desde então, esmerado-se em defender.

Já examinei Edmund Burke em várias “Heritage Lectures”. Se possível, desejaria, também, examinar um contemporâneo desse autor, John Adams (1735-1826), em certo sentido a sua contraparte norte-americana; todavia, por mais livros que Adams tenha escrito, nenhum tratado de sua lavra pode ser destacado como uma obra seminal da política que tenha influenciado fortemente homens de tendências conservadoras. Isso é lamentável, pois, nos dez espessos volumes de seus escritos, editados por seu neto Charles Francis Adams (1807-1886) e publicados em 1856, há abundância de sabedoria e graça; ou mesmo nos muitos volumes dos Adams Papers (Escritos de Adams), publicados mais de um século depois. Mesmo assim, suponho que muito poucas pessoas já se uniram a mim na leitura de cada frase de Adams já publicada; por isso, devo passar ao segundo livro, do autor conservador cuja influência, pelo menos nos Estados Unidos, foi menor apenas que a de Burke — elogiando en passant a antologia organizada por George A. Peek Jr. (1918-2002), The Political Writings of John Adams  [Escritos Políticos de John Adams].

De la Démocratie en Amérique [A Democracia na América], de Alexis de Tocqueville (1805-1859), ainda o melhor estudo sociológico de nossa era de massas, foi escrito sob o temor da tirania da maioria e do materialismo democrático; o segundo volume dessa grande obra revela uma forte influência dos escritos de Burke. Tocqueville entendeu a tendência do povo norte-americano na primeira metade do século XIX como mais ninguém; e essa tendência ainda segue na direção em que previu, embora nos encontremos, rio abaixo, a um século e meio de distância de Tocqueville.

Incidentalmente, posto que o dr. Friedrich August von Hayek (1899-1992) tenha abjurado ao termo “conservador” bem como aos termos “liberal” e “libertário”, reconheceu ser discípulo tanto de Burke quanto de Tocqueville, chamando-se Old Whig, como Burke; de modo que talvez tenha sido mais conservador do que aspirasse ser.

Como nosso terceiro livro conservador, proponho The American Democrat [O Democrata Americano], de James Fenimore Cooper (1789-1851), um contemporâneo de Tocqueville. Apesar da ainda forte popularidade dos Leatherstocking Tales, mesmo entre críticos literários sérios, nem mesmo uma vigésima parte do número de pessoas que leram A Democracia na América já leu The American Democrat; esperamos que a bela nova edição de The American Democrat, publicada há alguns anos pelo Liberty Fund, acabe nas mãos de leitores atentos. O seu ponto mais forte é a ousada defesa feita por Cooper da necessidade de uma liderança honrada em uma sociedade democrática. Cronologicamente, agora surge o resoluto John C. Calhoun (1782-1850); mas nem A Disquisition on Government [Disquisição sobre o Governo], nem A Discourse on the Constitution [Discurso sobre a Constituição], embora muito respeitados por cientistas políticos, são prontamente compreendidos por muitas pessoas nos dias de hoje. Por isso, como nosso quarto volume, saco de minhas estantes um livro de um ardente católico que se teria desagradado consideravelmente com as cartas pastorais recentemente expedidas por certos bispos.

Refiro-me a The American Republic [A República Norte-Americana], publicado em 1865, escrito por Orestes Brownson (1803-1876), um ianque católico, persistente e inclinado a controvérsias. Uma coisa sobre a qual o sr. Arthur M. Schlesinger Jr. (1917-2007) e eu concordamos é sobre a importância de Brownson. Calhoun e Brownson foram os dois primeiros homens públicos norte-americanos a usarem o termo conservador com uma conotação elogiosa — já no início da década de 1840. Brownson foi o primeiro escritor a responder, de modo rigoroso e sistemático, ao Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels (1820-1895). O livro The American Republic analisa as constituições, escrita e não escrita, deste país e descreve a missão norte-americana de reconciliar as exigências da autoridade e da liberdade.

Porque o presente livro se dirige ao público norte-americano, enfatizo livros norte-americanos que são relevantes para as questões que o país enfrenta; caso estivesse na Grã-Bretanha, falaria mais sobre escritores políticos ingleses e escoceses. Na Inglaterra vitoriana, os livros Liberty, Equality, Fraternity [Liberdade, Igualdade, Fraternidade], de James Fitzjames Stephen (1829-1894), Democracy and Liberty (Democracia e Liberdade), de William E. H. Lecky (1838-1903) e Popular Government [Governo Popular], de Sir Henry Maine (1822-1888), foram escritos para resistir à ameaça da democracia e do socialismo. Como nosso quinto livro, seleciono Liberty, Equality, Fraternity, de James Fitzjames Stephen — uma refutação mordaz tanto do jargão da Revolução Francesa quanto do livro On Liberty [A Liberdade], de John Stuart Mill  (1806-1879). Acredito que o poderoso ataque de Stephen pode ser obtido em alguma editora especializada em republicações, por um preço elevado.

À medida que se aproximava o final do século XIX, o mais espirituoso e sistemático de todos os homens de letras conservadores da Grã-Bretanha era W. H. Mallock (1849-1823), autor de mais de uma vintena de livros, que iam de romances psicológicos e resenhas de viagem e memórias a análises econômicas penetrantes. Com exceção de seu primeiro livro, o satírico The New Republic [A Nova República], Mallock quase já não é lido hoje em dia, e a maioria dos seus livros está inacessível nos Estados Unidos, a não ser em grandes bibliotecas acadêmicas. Assim mesmo, recomendo francamente que vos apodereis, se possível, de uma cópia do sexto livro conservador de minha preferência, Is Life Worth Living? [A Vida Vale a Pena], de Mallock. Essa polêmica obra, escrita de modo vigoroso, é uma advertência contra o tédio pessoal e social que resulta de uma perda geral do sentido religioso: uma sociedade mortalmente entendiada. Uma nova edição do livro A Critical Examination of Socialism [Exame Crítico do Socialismo] foi lançada pela editora Transaction Publishers.

De volta aos norte-americanos. Durante as primeiras três décadas do século XX, dois críticos literários importantes, Paul Elmer More e Irving Babbitt, eram os conservadores mais inteligentes do país. É difícil escolher entre Aristocracy and Justice [Aristocracia e Justiça], de More, e Democracy and Leadership [Democracia e Liderança], de Babbitt — este último, disponível pelo Liberty Fund, com um prefácio de autoria deste vosso servo. Permiti-me recomendar, em vista de nossas conversas, Democracia e Liderança como o sétimo livro dessa restrita lista. Babbitt empenhou-se corajosamente em restaurar a compreensão do verdadeiro significado de justiça e em relembrar à sua época os perigos da expansão e da centralização materialista, e em defender o propósito ético das letras humanas. No fim de 1986, foi publicada pelo National Humanities Institute uma nova edição de Literature and the American College [Literatura e o College Norte-Americano], de Babbitt, com uma introdução bastante longa de minha autoria. Vários livros de Babbitt e de More foram republicados nos últimos anos — um sinal da renovação do pensamento conservador.

Tanto antes quanto depois da Guerra de Secessão, metade dos livros conservadores norte-americanos importantes foi escrita no Sul. Na condição de nobre espécime da mentalidade conservadora do Sul, tomo como o meu oitavo livro conservador The Attack on Leviathan [O Ataque ao Leviatã], de Donald Davidson (1893-1968), oriundo do Tennessee, poeta, crítico, historiador, compilador de baladas, defensor da herança sulista. Deparei-me com The Attack on Leviathan em uma biblioteca universitária quando estava no primeiro ano da faculdade, e o livro me converteu em um adversário do robusto Estado massificante. Ao escrever uma resenha da coletânea A Band of Prophets: The Vanderbilt Agrarians After Fifty Years [Um Bando de Profetas: Os Agrarianos da Vanderbilt após Cinquenta Anos] editado por William C. Havard e Walter Sullivan e de uma nova edição do manifesto Il Take My Stand [Manterei Firme a Posição] escrito pelos Agrarianos Sulistas, nas páginas do periódico Policy Review do Hoover Institution, há mais de dois anos, fiz um relato de como o eloquente livro de Davidson foi praticamente suprimido pela editora universitária que o publicou. Quando nos encontramos, na década de 1950, Davidson revelou-se surpreso por não ter eu achado uma cópia sequer da obra. O livro foi republicado por outra empresa, e vós deveis procurá-lo, pois é a obra política ignorada mais importante do país, no século XX. O título da nova edição é Regionalism and Nationalism in the United States [Regionalismo e Nacionalismo nos Estados Unidos], inclui uma introdução escrita por um certo Russel Kirk, e a editora é a Transaction Publishers.

A maioria dos economistas influentes é composta por liberais de estilo antigo ou liberais de estilo novo, sendo suficientemente limitados em suas visões acerca da existência humana. Assim, como minha nona sugestão de livro conservador seleciono The Social Crisis of Our Time  [A Crise Social de Nossa Época], de meu velho amigo, o economista Wilhelm Röpke (1899-1966), oriundo da Alemanha e naturalizado suíço. Esse livro é uma análise da ameaça do que Röpke chamou de “culto do colossal”. Entre as consequências mais desagradáveis da sociedade de massas, a pior é a proletarização. Temos de achar o caminho de volta à escala humana, na economia e na política:

O socialismo, o coletivismo e seus agregados políticos e culturais são, no fim das contas, apenas a última consequência de nosso passado; são as últimas convulsões do século XIX, e somente neles é alcançado o nadir de um desenvolvimento de séculos na direção errada; são o estado final e sem solução para o qual estamos sendo carregados, a não ser que façamos alguma coisa (…)

Assim escreveu Rõpke por volta de 1949. A maioria dos livros desse notável pensador social estão, no momento, inacessíveis nos Estados Unidos, exceto The Social Crisis of Our Time.

Como décimo livro conservador, recomendo que leiais, amigos, Notes Towards a Definition of Culture [Notas para a Definição de Cultura], de T. S. Eliot. O presidente Richard Nixon (1913-1994), certa vez, me perguntou na Casa Branca qual livro deveria ler, tendo em vista os parcos momentos que tinha de tempo livre. Notas para a Definição de Cultura, respondi; e quando perguntou-me por que, expliquei que esse breve volume toca nas razões da decadência da sociedade moderna, na substituição de uma classe dirigente saudável por uma elite burocrática especializada, nas relações que se deveriam manter entre os homens em postos públicos e homens de ideias, e no que vale a pena preservar na nossa cultura. Mais do que qualquer outro escritor do século XX, Eliot defendeu os costumes, a convenção e a continuidade na sociedade, e a ordem moral da civilização que partilhamos. Deveis ler, também, aquele outro pequeno volume sobre a ordem civil e social, The Idea of a Christian Society [A Ideia de uma Sociedade Cristã]. Ambos os livros continuam prontamente disponíveis nas livrarias: a alta reputação de Eliot é difícil de silenciar.

Pronto! Abri-vos as páginas de dez livros — escolhendo-os com vistas à diversidade do impulso conservador — e mencionei, também, outros bons livros. Eis minhas sugestões de dez livros conservadores: 1°) Reflexões sobre a Revolução na França de Edmund Burke, 2°) A Democracia na América de Alexis de Tocqueville, 3°) The American Democrat de James Fenimore Cooper, 4°) The American Republic de Orestes Brownson, 5°) Liberty, Equality, Fraternity de James Fitzjames Stephen, 6°) Is Life Worth Living? de W. H. Mallock, 7°) Democracia e Liderança de Irving Babbitt, 8°) The Attack on Leviathan de Donald Davidson, 9°) The Social Crisis of Our Time de Wilhelm Röpke, e 10°) Notas para a Definição de Cultura de T. S. Eliot — caso enfileirásseis tais volumes em uma estante e religiosamente lêsseis um capítulo por noite, ganharíeis uma sabedoria política e moral muito considerável. Dentre os diversos autores, temos um político irlandês, um viajante e advogado francês, um romancista do estado de Nova York, um jornalista católico da Nova Inglaterra, um juiz inglês, um satirista inglês, um professor de Harvard, um poeta sulista, um economista suíço e um homem de letras anglo-americano: nenhum deles, notai, professor de Ciência Política.

Seria fácil nomear outros dez livros conservadores, de mesma importância. Algumas dessas alternativas seriam obras diferentes dos mesmos autores mencionados; no entanto, outras seriam escritas por autores bem diferentes. A literatura de opinião conservadora, acumulada por mais de dois séculos, alcançou um volume e qualidade superior impressionantes. Permanece a questão sobre a facilidade de acesso à maior parte dela.

Deveis ter observado que não mencionei sequer um livro, nos dez acima listados, de autor ainda vivo. Isso não se deve à falta de títulos para escolher; ao contrário, fico constrangido pela riqueza atual da produção de escritos conservadores, interessantes e competentes — que não é o mesmo que sugerir que soframos de um superávit de gênios originais. Algumas das mentes conservadoras mais perspicazes, hoje em dia, podem ser encontradas em lugares inesperados: Tage Lindbom (1909-2001), na Suécia, por exemplo, ou escritores russos perseguidos na União Soviética. Dentre os homens de alto poder intelectual e arte literária ainda vivos, aqui nos Estados Unidos, estão Eliseo Vivas (1901-1993), Andrew Lytle (1902-1995), Cleanth Brooks (1906-1994), e mais uns vinte homens de letras de tipo conservador. Por outro lado, observo que no livro The American Conservative Movement: The Philosophical Founders [O Movimento Conservador Americano: Os Fundadores Filosóficos] do finado John P. East (1931-1986) sobre pensadores políticos conservadores das últimas décadas, apenas um ainda vive. Eric Voegelin (1901-1985), Willmoore Kendall (1909-1968), Leo Strauss (1899-1973), o já citado Richard M. Weaver, Frank S. Meyer (1909-1972), Ludwig von Mises (1881-1973) — todos já partiram dessas paragens. A última folha remanescente na árvore dos Fundadores Filosóficos de John East é este vosso servo.

***

Tenho a razoável certeza de que alguns de vós, gentis leitores, deveis ter pensado interiormente, a respeito das páginas precedentes: “Se existe um conjunto tão amplo de bons ou mesmo grandes livros de talhe conservador, por que é que raramente encontramos esses volumes nas livrarias ou em bibliotecas? Por que não fomos apresentados a esses livros na escola ou na universidade? Por que livros como esses não estão nas listas dos mais vendidos? Por que somente podemos ler resenhas a respeito deles — supondo que sejam resenhados — em periódicos abertamente conservadores, ou em uma revista confessional, ou no máximo no Wall Street Journal? Por que até mesmo a National Review prefere aparentemente resenhar em profundidade os livros já resenhados na New York Review of Books ou no New York Times?”

Por que, podeis haver refletido, um bom número dos livros antigos aqui recomendados estão há tanto tempo esgotados? Por que nenhuma editora os disponibiliza ao público, quando estão livres, na grande maioria das vezes, de direitos autorais, e quando presumivelmente venderiam tão bem quanto vários livros sérios provenientes de outra corrente de pensamento, esses últimos facilmente encontrados nas livrarias? Por que a publicação de livros reconhecidamente conservadores, novos ou antigos, está confinada a umas pequenas e poucas editoras de capital e recursos de distribuição limitados — Regnery Gateway (que se mudou de Chicago para Washington), Sherwood Sugden, Liberty Classics / Liberty Press, ocasionalmente uma das editoras universitárias e, recentemente, a Transaction Books?

Ora, porque ainda prevalece uma pesada dominação, na publicação de livros comerciais e, em geral, na publicação de livros acadêmicos, do ultrapassado ambiente de opinião de uma esquerda “de frases feitas”. Encontrar uma editora de Manhattan para publicar qualquer livro bem-escrito que pareça refletir a sabedoria de nossos ancestrais é uma empresa tão árdua quanto um dos trabalhos de Hércules — e menos coroável de êxito.

Tal hegemonia desse esquerdismo norte-americano arcaico, que se tornou perfeitamente intolerante e foge da própria sombra, estende-se ao mercado de resenhas na imensa maioria dos veículos de crítica literária, tanto populares quanto acadêmicos. No exato momento em que a opinião pública está movendo-se em massa na direção das medidas e dos homens conservadores, os intelectuais do mundo editorial deslancham em desafiadora marcha na direção oposta. São perfeitamente afeitos, como espécie, a ganhar muito dinheiro com a publicação de pornografia e resenhando-a de um modo maroto e titilante; no entanto, nem mesmo a perspectiva de lucro tenta esses altivos editores a tocarem na mercadoria conservadora e serem poluídos.

Dos livros que recomendei nestas páginas, a maioria ainda é publicada, mas não facilmente encontrada em livrarias ou bibliotecas públicas; ao passo que outros se encontram completamente indisponíveis faz um bom tempo. Houvesse eu nomeado livros conservadores escritos por autores menos famosos, aí teria sido a mesma coisa que escrever sobre os livros perdidos do Ab Urbe Condita Libri [História de Roma] de Tito Lívio (59 a.C.-17 A.D.), dada a probabilidade de se achar uma cópia disponível para compra.

Vale a pena discutir as origens dessa mentalidade anticonservadora entre editores, críticos e bibliotecários. Para tanto, porém, seria necessário outro ensaio; e os remédios para tal enfermidade discriminatória não serão encontrados tão cedo. Um paliativo poderia ser a injeção de capital em editoras que conhecem o significado dos costumes, da convenção e da continuidade; mas aparentemente (com algumas honrosas exceções) os que foram censurados por Theodore Roosevelt (1858-1919) como “malfeitores de Grande Riqueza” consideram os livros como algo de pouca importância.

No começo deste capítulo, observei que o impulso conservador não é um produto dos livros, mas, ao contrário, do apego aos costumes, à convenção e à continuidade. Os conservadores preocupam-se mais com coisas reais do que com as abstrações da Academia de Lagado ou da Cuconuvolândia. No entanto, livros falaciosos tiveram profunda relação com a derrubada da velha estrutura da ordem em quase todo o mundo, durante os últimos duzentos anos; e bons livros podem contribuir muito, provocando uma reação intelectual saudável, para a preservação da ordem, da justiça e da liberdade.

O número de norte-americanos que leem livros sérios de qualquer tipo e, a partir deles, julgam a realidade, parece fadado a diminuir mais rapidamente durante os anos restantes deste século do que já o fez desde a Segunda Guerra Mundial. Esse diminuto remanescente, porém, pode equivaler ao conjunto desconhecido de pessoas que, como diz A. V. Dicey (1835-1922), são os verdadeiros autores da opinião pública. Os grandes escritores conservadores sempre se dirigiram a uma minoria do público leitor; mas isso pode estar mudando, à medida que o público leitor fica cada vez mais restrito, em função do grosseiro triunfo dos vídeos, da televisão a cabo e de outras formas duvidosas de entretenimento. Como Lionel Trilling (1905-1975) sugeriu, com pesar, em 1950, a imaginação literária dos esquerdistas faliu. Por isso, pode vir a acontecer, paradoxalmente, que os livros conservadores venham a possuir mais autoridade e influência no século XXI do que exerceram nos séculos XVIII, XIX ou XX.

FONTE: A Política da Prudência, Russell Kirk

.

Compartilhe