Como Amar a Humanidade – e Como Não a Amar – Theodore Dalrymple

Turgenev

Como Amar a Humanidade – e Como Não a Amar – Theodore Dalrymple

Quase todo intelectual alega considerar profundamente o bem-estar da humanidade, sobretudo o bem-estar dos pobres. Mas, sabendo-se que não há registro de nenhum genocídio que tenha ocorrido sem que seus perpetradores alegassem estar agindo em nome do bem-estar da humanidade, fica evidente que sentimentos filantrópicos podem assumir uma infinidade de formatos.

Dois grandes escritores do século XIX, Ivan Turgenev e Karl Marx, ilustram essa diversidade com vivida clareza. Ambos nasceram em 1818 e morreram em 1883, em muitos outros aspectos suas vidas se cruzam de tal forma que chega a ser inacreditável tamanha coincidência. No entanto, esses dois homens enxergaram a vida e o sofrimento humano de forma completamente distinta. De fato, irreconciliável – como se observassem as coisas estando em lados opostos do telescópio. Turgenev via os seres humanos, indistintamente, como indivíduos dotados de consciência, caráter, sentimentos, virtudes e fraquezas morais; Marx sempre os via como flocos de neve numa avalanche, como ocorrências de forças gerais, como se não fossem integralmente humanos, uma vez que fundamentalmente condicionados pelas circunstâncias. Onde Turgenev enxergava homens e mulheres, Marx enxergava povo. Esses dois olhares para o mundo persistem em nossa época, e afetam-no profundamente, para o bem ou para o mal, acometendo as soluções que propomos aos nossos problemas sociais.

As semelhanças entre as carreiras desses dois homens têm início na forma como ambos frequentaram a Universidade de Berlim, em momentos intercalados, e onde ambos foram profundamente afetados – mesmo intoxicados – pelo hegelianismo então dominante. Como resultado, ambos consideraram seguir carreira como professores universitários, mas nenhum dos dois jamais assumiu um posto na universidade. Eles tinham em Berlim muitos conhecidos em comum, incluindo Mikhail Bakunin, o aristocrata russo que mais tarde se tornaria um revolucionário anarquista, o filósofo Bruno Bauer, e o poeta radical Georg Herwegh. Ambos também dividiam a mesma negligência em relação ao uso do dinheiro, talvez por terem nascido em circunstâncias de prosperidade e, portanto, acreditarem que o dinheiro nunca seria um problema. Ambos iniciaram suas carreiras como poetas românticos, embora um volume maior da poesia de Turgenev tenha sido publicado, se comparado a Marx.

Suas influências e gostos literários eram semelhantes. Leram avidamente os clássicos gregos e latinos; ambos eram capazes de citar trechos de Shakespeare em inglês. Ambos aprenderam espanhol a fim de ler Calderón (claro, Turgenev também aprendeu a falar a língua nativa do grande porém insatisfatório amor de sua vida, a famosa prima donna Pauline Viardot). Ambos estavam em Bruxelas quando estourou a revolução de 1848 contra a Monarquia de Julho na França, e partiram a fim de observar os eventos em outro lugar. O amigo russo mais próximo de Turgenev, Pavel Annenkov, ao qual ele dedicou parte de seu trabalho, conheceu Marx muito bem em Bruxelas, deixando uma descrição pouco elogiosa sobre ele.

A polícia secreta espionou a atividade dos dois, e ambos passaram a maior parte de suas vidas adultas, onde também morreram, no exílio. Ambos tiveram filhos com criadas; no caso de Turgenev, uma indiscrição da juventude, no caso de Marx uma indiscrição na meia-idade. Todavia, diferentemente de Marx, Turgenev reconheceu sua filha e a sustentou.

Os dois ficaram conhecidos pela compaixão que sentiam pelos desafortunados e oprimidos. Mas, apesar de todas as semelhanças de educação e experiência, a qualidade da compaixão entre os dois não poderia ter sido mais divergente; enquanto em um deles ela era real, enraizada no sofrimento de indivíduos concretos, no outro não era, permanecendo abstrata e geral.

A fim de contemplar essa diferença, basta colocar o romance Mumu, de Turgenev, publicado em 1852, ao lado do Manifesto Comunista de Karl Marx, escrito quatro anos antes. Ambas as obras, praticamente iguais em extensão, foram elaboradas em circunstâncias difíceis: Marx fora expulso da França, acusado de atividade revolucionária, residia em Bruxelas, onde não desejara estar e onde não possuía renda, ao passo que Turgenev estava em prisão domiciliar em Spasskoye, sua propriedade isolada a sudoeste de Moscou, por ter escrito Rascunhos da Memória de Caçador, um livro implicitamente contrário à servidão e, portanto, subversivo. O censor que permitira a sua publicação foi despedido e lhe foi suspensa a pensão.

Mumu se passa em Moscou nos dias de servidão. Gerasim é um servo surdo e tolo, mas de estatura e força gigantescas, cuja proprietária, uma velha e tirânica senhora feudal, trouxe-o do campo para a cidade. Incapaz de se expressar por meio de palavras, Gerasim se afeiçoa, desajeitadamente, por uma jovem camponesa chamada Tatyana, também serva da mesma senhora. Todavia, por puro capricho, a senhora feudal, uma viúva amarga e cruel que nunca é nomeada, decide casar Tatyana com outro de seus servos, um sapateiro alcoólatra chamado Kapiton, dilacerando, dessa forma, as esperanças de Gerasim.

Não muito tempo depois, Gerasim encontra uma cadelinha se afogando num charco. Ele a resgata e cuida dela até que cresça e se torne uma cadela saudável. Ele a chama de Mumu, o máximo que consegue articular como palavra, e em breve todas as pessoas da propriedade feudal passam a conhecer a cadela por aquele nome. Gerasim torna-se muito apegado a ela, sua única e verdadeira amiga, que ele permite viver em seu pequeno quarto, e que o acompanha onde quer que vá. A cadela adora Gerasim.

Um dia, a proprietária vê Mumu pela janela e pede que a cadela seja levada até ela. Mas Mumu se sente acuada e range os dentes. A proprietária, instantaneamente, detesta a cachorra e exige que se livrem dela. Um dos servos da senhora leva Mumu e a vende para um estranho. Desesperado, Gerasim busca a cadela, mas não consegue encontrá-la. Todavia, Mumu consegue fugir e encontrar o caminho de volta, para a completa felicidade de Gerasim.

Infelizmente, na noite seguinte, Mumu late e acorda a senhora, que fica extremamente irritada pela interrupção de seu sono. Ela exige que a cachorra seja, agora, executada. Seus servos vão até Gerasim e por meio de sinais transmitem a decisão da senhora. Gerasim, reconhecendo o inevitável, promete ele mesmo dar fim ao animal.

Então, temos duas passagens de pathos quase insuportável: na primeira, Gerasim leva Mumu até a taberna local:

 

Na taberna eles conheciam Gerasim e compreendiam sua linguagem de sinais. Ele pediu sopa de repolho e carne, sentando-se com os braços apoiados na mesa. Mumu ficou ao lado de sua cadeira, fitando-o serenamente com seu olhar manso. Seu pelo brilhava, podia-se ver claramente que fora escovada havia pouco. Trouxeram a Gerasim sua sopa de repolho. Ele picou um pouco de pão na sopa, cortou a carne em pequenos pedaços e colocou o prato no chão. Mumu começou a comer com sua delicadeza costumeira, seu focinho mal tocava a sopa. Gerasim olhou-a demoradamente; duas pesadas gotas de lágrima correram subitamente de seus olhos: uma caiu sobre a testa da cachorra, a outra na sopa. Ele cobriu seu rosto com as mãos. Mumu comeu metade da tigela e saiu andando, lambendo-se. Gerasim se levantou, pagou pela sopa e saiu.

 

Ele leva Mumu até o rio, apanhando um par de tijolos durante o trajeto. Nas margens do rio, ele entra num barco com Mumu e rema até atingir certa distância.

 

Finalmente Gerasim endireita-se rapidamente, com uma expressão de profundo amargor. Amarra os tijolos com uma corda, faz um laço e o coloca em volta do pescoço de Mumu e, levantando-a acima do rio, fita-a pela última vez […] Confiante e sem medo, ela olha para ele e abana o rabo. Ele vira o rosto, faz uma careta e a solta […] Gerasim nada ouviu, nem o grunhido de Mumu que caíra, tampouco o barulho da batida na água; para ele, o mais barulhento dos dias era parado e silencioso, de uma forma que nem a mais serena das noites é para nós silenciosa; e quando, novamente, abriu seus olhos as pequenas ondas estavam seguindo como sempre, borbulhando rio abaixo, como se apostassem corrida, fazendo marolas no casco do barco, e apenas mais para trás ondas maiores atingiam as margens.

 

Após a morte de Mumu, ficamos sabendo que Gerasim foge de volta para sua vila, onde trabalha como um escravo nos campos, e nunca mais ele estabelecerá um relacionamento próximo, com homem ou com animal.

Quando o culto, aristocrático e revolucionário exilado russo Alexander Herzen leu a história, ele tremeu de ódio. Thomas Carlyle disse que fora a história mais emocionalmente impactante que já lera. John Galsworthy disse que “nenhum outro protesto mais comovente contra a crueldade tirânica fora escrito”. E um dos parentes de Turgenev, para o qual o autor leu Mumu, escreveu posteriormente: “Quanta humanidade e bondade um sujeito precisa ter a fim de compreender e expressar dessa forma a experiência e os tormentos do coração de outro homem!”.

A história é autobiográfica, e a senhora feudal tirânica, capciosa, arbitrária e egoísta é a mãe do autor, Varvara Petrovna Turgeneva. Seu marido morreu precocemente, de modo que ela se tornou uma monarca absoluta em sua propriedade. Muitas histórias chegaram até nós a respeito de sua crueldade, embora nem todas tenham sido comprovadas; por exemplo, que ela enviara dois servos para a Sibéria por não fazerem reverência enquanto ela passava – porque eles não a tinham visto. O modelo para o personagem de Gerasim foi um servo surdo e burro que pertencera à Varvara Petrovna chamado Andrei.

Mumu é um protesto apaixonado contra o exercício do poder arbitrário de uma pessoa sobre outra, embora não seja politicamente esquemático. Apesar de ser obviamente direcionada contra a servidão, a história não sugere que a crueldade seja uma prerrogativa exclusiva dos senhores feudais, e que, caso a servidão fosse abolida, nenhuma vigilância contra esse tipo de crueldade pudesse se tornar mais necessária. Se o poder é uma característica inerente dos relacionamentos humanos — e certamente apenas adolescentes e certos tipos de intelectuais, incluindo-se Marx, poderiam imaginar que não -, então Mumu representa um chamado permanente à compaixão, contenção e justiça em seu exercício. Esse é o motivo pelo qual Mumu não perde a capacidade de comover mais de 140 anos depois da abolição da servidão na Rússia; ou seja, embora se refira a um lugar particular e a uma época em particular, a história tem um apelo universal.

Ao construir seu argumento central, Turgenev não sugere que seus personagens sejam outra coisa que não indivíduos, com suas próprias características pessoais. Ele não os vê somente como membros de um grupo ou classe, moldados pela opressão e agindo de forma predeterminada, como vagões numa ferrovia. E a cuidadosa observação feita mesmo do mais humilde deles é o testemunho poderoso da crença que ele tem em sua humanidade. Um grande aristocrata que era, e familiarizado com as mentes mais brilhantes da Europa, ele não descartou considerar o mais humilde dos camponeses, o qual não podia sequer ouvir ou falar. Os camponeses oprimidos de Turgenev eram seres humanos completos, dotados de livre-arbítrio e de escolha moral.

Ele contrasta a delicada ternura de Gerasim por Mumu com a irritabilidade egoísta da senhora feudal. “Por que aquele estúpido precisa de um cachorro?”, ela pergunta, sem pensar, por um segundo, que aquele “homem estúpido” possa ter interesses e sentimentos próprios. “Quem deu permissão para que ele pudesse criar um cachorro em meu pátio?”

Turgenev não indica que esse poder quase absoluto da senhora seja, em qualquer sentido, algo a ser invejado. Embora religiosa de uma forma superficial e sentenciosa, ela vê Deus como um servo, não como um mestre, e não reconhece qualquer limite, tanto vindo de Deus ou das leis, para o exercício de sua vontade. O resultado de sua miséria: um permanente estado de irritação, insatisfação e hipocondria. A satisfação de seus caprichos não lhe dá prazer, justamente por serem meros caprichos, em vez de desejos verdadeiros; e – acostumada a ser obedecida, como ela é, e acreditando que merece nada menos do que isso – ela interpreta qualquer resistência, até mesmo a do tempo, como intolerável.

Por exemplo, quando Mumu lhe é apresentada, a senhora se dirige a ela de uma forma insinuante e melosa, mas quando a cachorra não responde como o esperado, ela logo muda o tom: “Leve-a daqui! Que cadelinha nojenta!”. Diferentemente de Gerasim, que alimentou Mumu com carinhosa devoção, a senhora quer que a cachorra a ame imediatamente, apenas porque é seu desejo naquele momento.

O poder que ela tem a torna desonesta e incapaz de introspecção. Quando Gerasim desaparece, depois de afogar Mumu, “ela teve um ataque de nervos, derramou lágrimas, ordenando que fosse encontrado não importa o que fizessem, declarou que jamais ordenara que a cachorra fosse destruída e finalmente deu [ao seu criado-chefe] um severo castigo”. A forma como nega sua responsabilidade é estarrecedora. O poder corrompe, Turgenev sabe; e o fracasso em se aceitar quaisquer limites sobre os desejos impensados torna a felicidade impossível. Nenhum conjunto de arranjos sociais, Turgenev também o sabe, será capaz de eliminar todos esses perigos de uma vez.

Tampouco ele acredita que as pessoas sujeitas ao poder da senhora sejam, por virtude de sua opressão, nobres. Elas são manipuladoras e coniventes e, por vezes, inconsequentemente cruéis. A zombaria que fazem de Gerasim é limitada somente pelo medo que têm de sua força física, e elas não se compadecem nem um pouco de sua condição. Quando Gravilla, o criado-chefe da senhora, vai contar a Gerasim que ele deve se livrar de Mumu de uma vez por todas, ele bate na porta de Gerasim e grita: “‘Abra!’ Então veio o som de um latido sufocado; mas nenhuma resposta. ‘Estou lhe mandando que abra!’, ele repetiu. ‘Gavrila Andreich’, diz Stepan debaixo da escada, ‘ele é surdo, não ouve’.Todos começaram a rir”.

Não há qualquer sinal de compaixão na risada que dão, nem nesse momento nem em qualquer outro momento da história. A crueldade não é uma marca exclusiva da senhora feudal, e a insensibilidade dos servos em direção a Gerasim me faz lembrar de uma cena de minha infância, quando tinha cerca de onze anos. Eu me encontrava numa fila para comprar ingressos para uma partida de futebol – naquela época, por razões que não consigo me lembrar, eu era fã desse esporte. A fila era longa, demandaria pelo menos uma espera de duas horas. Um velho cego carregando um acordeão passou pela fila cantando “The Man Who Broke the Bank at Monte Cario”, enquanto um acompanhante seu segurava um boné para esmolas. Eles passaram por alguns operários que estavam com um rádio, e estes aumentaram o volume ao máximo a fim de abafar a canção do velho. Eles riram gostosamente com o desconcerto do velho, enquanto seu acompanhante o levava para longe, reduzido ao silêncio.

Ninguém interveio ou disse para aqueles jovens a forma abominável como haviam se comportado; eu era muito covarde para fazer qualquer coisa. Mas, naquela pequena cena, percebi com clareza a permanente capacidade do homem para a desumanidade, uma capacidade que transcende condição social, classe ou educação.

Outro incidente, quando praticava medicina muitos anos mais tarde em uma ilha do Pacífico, reforçou essa lição. Ao lado do hospital psiquiátrico, com seu pátio cercado por uma alta cerca de arame, encontrava-se uma colônia de leprosos. Todas as tardes, os leprosos se reuniam na cerca a fim de zombar dos “lunáticos”, enquanto estes saíam para se exercitar, encenando suas danças estranhas e gritando contra perseguidores inexistentes.

A vitória contra a crueldade nunca é final, mas, assim como a manutenção da liberdade, ela também requer uma vigilância eterna. E requer, como em Mumu, o exercício da imaginação compadecida.

Passando de Turgenev para Marx (embora o Manifesto apareça com os nomes de Marx e Engels, o trabalho foi quase que inteiramente de Marx), entramos, em vez de remorso ou de compaixão, no mundo do eterno amargor: do rancor, ódio e desprezo. E verdade que Marx, como Turgenev, apresenta-se do lado dos desfavorecidos, do homem sem posses, mas de uma forma absolutamente fria. Turgenev espera que nos comportemos de forma humana, ao passo que Marx visa nos incitar à violência. Além do mais, Marx não tolerava competidores no mercado filantrópico. Ele era notoriamente mordaz com todos os práticos candidatos reformistas. Caso pertencessem à classe baixa, faltava-lhes o treino filosófico necessário para penetrar nas causas da miséria; caso fossem da classe alta, eles estariam hipocritamente tentando preservar “o sistema”. Somente ele conhecia o segredo de transformar o pesadelo em sonho.

De fato, as hecatombes que seus seguidores acumularam estão – até a última de suas milhões de vítimas – implícitas no Manifesto. Intolerância e totalitarismo compreendem as crenças expressas: “Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários. Eles não têm interesses que os separem do proletariado em geral”.

Em outras palavras, não há necessidade de outros partidos, muito menos de indivíduos com suas próprias artimanhas. De fato, uma vez que os comunistas expressam tão perfeitamente os interesses do proletariado, qualquer um que se oponha ao comunismo, por definição, se opõe aos interesses do proletariado. Além do mais, como os comunistas “declaram abertamente que os fins só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social”, presume-se que tanto Lênin quanto Stálin agiram em perfeita obediência aos mandamentos comunistas ao eliminarem todos os seus oponentes usando a força. E uma vez que, segundo Marx, as idéias que as pessoas têm são determinadas pela posição que ocupam na estrutura econômica da sociedade, não é assim sequer necessário para as pessoas declararem quem seriam os seus inimigos, pois eles podem ser conhecidos ex officio, por assim dizer. O assassinato dos kulaks foi a aplicação prática da epistemologia do Manifesto.

A medida que se lê o Manifesto, uma fantasmagórica procissão das catástrofes marxistas parece saltar dos textos, como a sopa das bruxas em Macbeth. Peguemos, por exemplo, os pontos oito e nove do programa comunista (curiosamente, como o programa divino publicado no Monte Sinai, eles perfazem dez pontos ao todo). “VIII – Trabalho obrigatório para todos. Estabelecimento de exércitos industriais, particularmente para a agricultura. IX – Combinação da agricultura com a indústria, atuação no sentido da eliminação das contradições entre cidade e campo”. Aqueles que experimentaram o regime de Pol Pot, e a “sistematização” de Ceauçescu, os quais demoliram vilas inteiras substituindo-as por incompletos prédios de apartamento no meio dos campos, não terão dificuldade para reconhecer a proveniência de seus infortúnios.

O Manifesto não faz qualquer menção à vida do indivíduo humano, exceto para negar sua possibilidade sob as condições dadas. Verdade, Marx menciona alguns poucos autores pelo nome, mas somente no intuito de despejar sobre eles o seu pesado e soberbo escárnio teutônico. Para ele não há, de forma alguma, indivíduos ou seres humanos de verdade. “Na sociedade burguesa o capital é independente e pessoal, ao passo que o indivíduo que trabalha é dependente e impessoal.”

Não é de se estranhar que, assim sendo, Marx fale apenas em termos de categorias: os burgueses, os proletários. Para ele, os indivíduos, enquanto tais, nada mais são do que clones, não pela sua imensa identidade genética, mas em função de suas relações com o sistema econômico. Por que perder tempo estudando um homem, quando se conhecem os Homens?

Tampouco essa é a única generalização do Manifesto que reduz toda a população humana a meras cifras:

 

Sobre o que repousa a família atual, a família burguesa? Sobre o capital, o lucro privado […] Mas esse estado de coisas encontra o seu complemento na ausência forçada da família para os proletários, e na prostituição pública […] O palavrório burguês acerca da família e da educação, sobre a íntima relação de pais e filhos, torna-se tanto mais repugnante quanto mais a grande indústria rompe todos os laços familiares e transforma as crianças em simples objetos de comércio, em simples instrumentos de trabalho […] O burguês vê na mulher um mero instrumento de produção […] Nossos burgueses, não contentes com o fato de terem à disposição as mulheres e as filhas dos proletários, sem falar da prostituição oficial, têm singular prazer em cornear-se mutuamente. O casamento burguês é, na realidade, a comunidade das mulheres casadas. No máximo, poderiam acusar os comunistas de quererem substituir uma comunidade de mulheres hipocritamente dissimulada, por uma comunidade franca e oficial de mulheres.

 

Não há como se enganar diante do ódio e da cólera que emanam dessas palavras; mas a raiva, embora seja uma emoção real e poderosa, não é necessariamente honesta, e muito menos tem a insatisfação como resultado exclusivo. Existe uma tentação permanente, particularmente entre os intelectuais, em supor que a virtude de um sujeito seja proporcional ao ódio que ele demonstra em relação ao vício. O ódio que se tem ao vício passa então a ser medido em função da veemência com que ele é denunciado. Mas, quando Marx escreveu essas linhas, ele certamente tinha conhecimento de que eram, na melhor das hipóteses, uma caricatura violenta, e na pior, uma distorção deliberadamente calculada para enganar e destruir.

Como um homem de família, ele próprio não obteve êxito. Embora tenha vivido uma realidade burguesa, foi uma de um tipo boêmio e desordenado, esplendorosamente esquálida. Duas de suas filhas, Laura e Eleonor, cometeram suicídio, e, em parte, isso aconteceu por ele ter interferido em suas vidas. Mas mesmo o seu pior inimigo não poderia alegar que ele visse em sua mulher, Jenny von Westphalen, “um mero instrumento de produção”, uma spinning jenny, por assim dizer. Metade dos seus poemas de juventude foram dirigidos a ela nos termos mais apaixonados e românticos, e isso apenas alguns anos antes de ele escrever o Manifesto. Embora o relacionamento entre os dois tenha esfriado mais tarde, ele também foi profundamente afetado pela morte da esposa, morrendo logo depois. Mesmo ele, que se informava a respeito das pessoas sobretudo através dos livros, deve ter percebido que o retrato que o Manifesto fazia das relações entre homens e mulheres estava grotescamente distorcido. Portanto, sua fúria – como acontece com boa parte da fúria moderna – era inteiramente artificial, talvez uma tentativa de forjar uma generosidade de espírito, ou de amor pela humanidade, que ele sabia não possuir, mas sentia que deveria ter.

Sua falta de interesse pelas vidas e pelos destinos das pessoas de carne e osso – o que certa vez Mikhail Bakunin chamou de sua completa falta de simpatia pela raça humana – torna-se evidente no fracasso em reconhecer os frequentes e nobres esforços dos trabalhadores a fim de manter uma vida familiar respeitável diante de grandes adversidades. Seria realmente verdade que eles não tinham laços familiares, e que seus filhos seriam meros artigos do capital? E típico da mentalidade sem rigor de Marx a elaboração de respostas ambíguas, como se o capital pudesse existir independentemente das pessoas que o geram. Apenas sua indignação, como o sorriso do gato de Cheshire, fica clara.

A sólida relação que Marx estabelece com a irrealidade também fica evidente em sua dificuldade para imaginar o que aconteceria quando, por meio da implementação das idéias de intelectuais radicais influenciados pelo seu modo de pensamento, a família burguesa realmente entrasse em colapso; quando “a ausência forçada da família” de fato se tornasse uma realidade social. Certamente as crescentes disputas sexuais e a disseminação do abuso e do descuido com as crianças, bem como um crescente aumento de violência interpessoal (tudo dentro das condições de prosperidade material sem precedentes) teriam se tornado absolutamente previsíveis a qualquer pessoa com um conhecimento mais profundo do que o de Marx sobre o coração humano.

Comparemos a crueza de Marx com a sutileza de Turgenev, aludida por Henry James, que conheceu Turgenev em Paris e escreveu um ensaio sobre ele um ano após sua morte:

 

Como todos os homens de grande envergadura, era composto de muitas e distintas nuances; e aquilo que lhe tornava mais notável era uma mistura de natural simplicidade com o fruto de uma vida dedicada à observação […] Certa vez fiquei tentado a dizer que ele tinha um temperamento aristocrático, uma observação que à luz de informações posteriores pareceu-me singularmente tola. Ele não se encaixava em qualquer definição desse tipo, e dizer que ele era democrático (embora seu ideal político fosse a democracia) seria atribuir-lhe uma caracterização igualmente superficial. Ele sentia e compreendia as contradições da vida; era imaginativo, especulativo e tudo mais, sem ser grosseiro […] Nosso convencional padrão anglo-saxônico moralista e protestante era estranho a ele, pois ele julgava as coisas com uma liberdade e uma espontaneidade nas quais encontrei uma fonte perpétua de renovação. Seu senso de beleza, seu amor pela verdade e por aquilo que é correto eram as fundações de sua natureza; mas metade do charme de sua conversa era a capacidade que tinha para fazer com que frases hipócritas e sentimentos arbitrários soassem simplesmente ridículos.

 

Não creio que ninguém poderia ter dito o mesmo de Marx. Quando ele escreveu que “os operários não têm pátria. Não se lhes pode tirar aquilo que não possuem”, ele escreveu como um homem que, até onde sei, nunca se importara em saber sobre as visões que os outros tinham. Os pronunciamentos que fez sobre a morte do sentimento patriótico foram bastante prematuros, para dizer o mínimo. E, quando escreveu que a burguesia lamentaria a perda cultural que a revolução do proletariado acarretaria, mas que “essa cultura é […] para a grande maioria um mero treinamento para agir como máquina”, ele fracassou em reconhecer os esforços profundamente dinâmicos dos trabalhadores da Grã-Bretanha em adquirir essa cultura, vista por eles como um agente libertador e enobrecedor. Não é preciso muita imaginação para se compreender que tipo de esforço foi necessário ao se trabalhar numa fábrica vitoriana durante o dia e ler Ruskin e Carlyle, Hume e Adam Smith durante a noite, mas foi exatamente esse o caso de tantos trabalhadores ingleses (os volumes que eles pegavam das bibliotecas e dos institutos de educação ainda podem ser encontrados nos sebos da Grã-Bretanha); mas esse foi um sacrifício para o qual Marx nunca esteve preparado, justamente porque ele nunca considerou que isso valesse alguma coisa. É possível questionar se não teria ele estabelecido o padrão para as hordas dos bárbaros acadêmicos, que destro- em aquilo que eles mesmos recebem como benefício.

Muito diferente de tudo isso foi a afeição que Turgenev expressava pelos desamparados, pois ele direcionava essa compaixão a seres humanos reais. Ele compreendia aquilo que Henry James chamou de “as contradições da vida”; ele compreendera que não havia solução para a história, nem qualquer apocalipse, depois do qual todas as contradições seriam resolvidas, todos os conflitos cessariam, os homens se tornariam bons em função de seus arranjos sociais e o controle político-econômico se tornaria uma simples administração em prol do benefício de todos, sem distinção. A escatologia marxista, ao lhe faltar qualquer senso comum, qualquer conhecimento real sobre a natureza humana, apoia-se em abstrações que para ela são mais reais do que as pessoas de carne e osso. E claro, Turgenev conhecia o valor das generalizações e criticava instituições como a servidão feudal, mas sem se valer de quaisquer tolas ilusões utópicas, pois ele sabia que o homem é uma criatura falha, capaz de aperfeiçoamento, mas não dotado de perfeição. Portanto, não houve hecatombes associadas ao nome de Turgenev.

Marx alegava conhecer os homens, mas os conheceu somente como seus inimigos. Apesar de ser um dialético hegeliano, ele não se interessava pelas contradições da vida. Nem a gentileza tampouco a crueldade o tocavam; os homens eram simplesmente os ovos dos quais a gloriosa omelete seria um dia feita. E ele seria instrumental nessa operação.

Quando consideramos nossos reformadores sociais – a linguagem que usam, suas preocupações, seu estilo, as categorias de seus pensamentos – eles se assemelham mais com Marx ou com Turgenev? Turgenev, que escreveu um maravilhoso ensaio intitulado “Hamlet e Dom Quixote”, um título que fala por si só, não teria ficado surpreso ao descobrir que o estilo marxista triunfou.

Devido a uma curiosa peça do destino, os frios e utópicos marxistas russos encontraram uma utilidade cínica para a história Mumu, de Turgenev: imprimiram dezenas de milhões de cópias, a fim de justificar a própria brutalidade assassina ao destruir qualquer traço da antiga sociedade. Poderia ter se abatido sobre essa história de Turgenev um destino mais terrível e disparatado? Poderia haver um exemplo mais eloquente da habilidade da abstração intelectual em apagar das mentes e corações dos homens qualquer traço de vergonha e de um sentimento verdadeiro pela humanidade?

Todavia, é preciso recordar um detalhe significativo da trajetória biográfica de Turgenev e de Marx, em que há uma grande diferença. Quando Marx foi enterrado, quase ninguém compareceu ao seu funeral (uma vingança poética, talvez, por ele não ter comparecido ao funeral de seu pai, que o adorava e que fez enormes sacrifícios por ele). Quando os restos mortais de Turgenev retornaram da França para São Petersburgo, milhares de pessoas, incluindo os mais humildes, compareceram para prestar suas homenagens – e por uma boa razão.

FONTE: Nossa Cultura… Ou o que Restou Dela – Theodore Darlymple

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